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Opiniões

23 DE JANEIRO DE 2015

Carta ao Fabião

Por: Da Redação

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Caro secretário de Cultura, Fábio Nunes (Fabião),

Escrevi, há exatos dois anos, um texto neste jornal para o então secretário Raul Christiano, que acabava de assumir o cargo.  Antes de escrever a você, Fabião, fui reler a mensagem enviada a seu antecessor. Separo aqui um trecho da carta:

“Mais do que redesenhar o modo de se fomentar recursos financeiros, a Secretaria precisa provocar a reflexão sobre como a sociedade local trata seus artistas. Eles apanham como cachorro sem dono. É repulsiva a ideia de que contratá-los é fazer um favor a eles. Nas entrelinhas, prevalece a ideia de que cultura deve ser de graça. Para o público, quase sempre. Para o artista, apenas oxigênio não coloca comida na mesa.” 

Nada mais atual! Confesso também que, quando soube dos boatos da mudança de comando na pasta da Cultura, pensei em dois aspectos. O primeiro: esse Fabião gosta de causas impossíveis. Deve ser devoto de São Judas Tadeu. É a segunda Secretaria sem dinheiro que você assume.

Quando você foi nomeado para a Secretaria de Meio Ambiente, na gestão Papa, comparei você a Marina Silva, que havia ficado deslocada no governo Lula, marcadamente contra as questões ambientais, vide a Usina de Belo Monte e a política indígena.

Não precisava ser vidente para sabermos que eu estava certo. Seu projeto de plantar 20 mil árvores na cidade, por exemplo, era excelente, mas estava na contramão da política de desenvolvimento dos últimos três governos, incluindo o atual. A proposta sempre foi transformar Santos em terra de concreto e ferro, multiplicando espigões e virando as costas para um projeto ambiental de longo prazo.

Você optou por repetir a dose. A Secretaria de Cultura é, para todos os governos – não importa a cor da camisa -, destinada a se sentar nas últimas fileiras do orçamento. Ser secretário de Cultura significa usufruir do vício da criatividade. Você que mal assumiu sabe que parte do dinheiro está comprometido com o Carnaval. O restante, com orações, chega ao final do primeiro semestre.

O segundo ponto se refere às costuras políticas. Por conhecê-lo há mais de duas décadas, espero que você não fique atado somente aos acordos entre PSDB e PSB e seja uma rainha da Inglaterra. Sabemos que você poderia representar, daqui a dois anos, um adversário ao próprio prefeito em um projeto de reeleição. Como aluno da velha escola, o prefeito soube te trazer para perto dele.

Sugiro que você dialogue com a sociedade civil e os movimentos culturais. O Plano Municipal de Cultura pode ser o primeiro passo, embora meu ceticismo e os exemplos desta cidade me digam que planos normalmente servem para parir reuniões, comissões, documentos, tratados, relatórios e outros armamentos da burocracia.

O Plano é um documento, ainda assim, essencial para a próxima década, desde que a fiscalização seja rigorosa e contínua. No entanto, existem questões mais urgentes. O Teatro Rosinha Mastrângelo e o Teatro Municipal, por exemplo, envergonham a história cultural da cidade. O primeiro se transformou em um fantasma. O segundo se esvaia pelos cupins, pelo descaso e outros bichos de ordem política.

Projetos como o Cine Comunidade, que exibia filmes em dezenas de lugares, inclusive periféricos, foram cortados por problemas de dinheiro no ano passado. Retome-os, seja por parcerias, seja com o cinto mais apertado. A verba do Facult, tão cara e necessária para fomentar ideias locais, precisa sair do papel e ser quitada, além de ampliada em 2015. É dali que nascem 30 propostas sólidas para a cultura caiçara, a base de sua gestão.

Recupere, por favor, os festivais de teatro, instáveis pela própria política irregular da sua pasta. Estes eventos têm história de sobrevivência às repressões de farda e de gravata e não podem sucumbir à censura econômica. Vivemos um momento propício para o diálogo, para a reunião de diversos interesses que orbitam em torno da arte mais popular, da arte que carece de apoio para a profissionalização efetiva. Nenhuma casa teatral, em Santos, permite ou se sente atraída em abrir uma temporada para um espetáculo local. Aos artistas, sobraram as ruas, nem sempre tão simpáticas à cultura de reflexão.

Confie em seus técnicos de segundo escalão. Muitos deles foram nomeados por Raul Christiano, que teve o mérito de – na medida do possível – colocar profissionais experientes nos postos adequados.

Movimentos políticos na área estão em gestação ou renovação. Ouça-os! Muitos artistas estão impregnados de esperança e de boas intenções, em parte cansados do sofrimento de quem vive com pouco ou nenhum apoio, em parte por causa da sua credibilidade construída como vereador e professor.

A Secretaria de Cultura é a encruzilhada que pode te levar a um futuro político colorido ou te colocar na vala comum de quem se submeteu pura e exclusivamente às barganhas cinzentas das alianças eleitorais. Use, por favor, com parcimônia, o livre arbítrio da política. Um abraço!

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