Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Choque de Realidade

Os games nem sempre trarão diversão e entretenimento. Momentos difíceis e dramas podem fazer com que aquele simples jogo tenha uma profundidade muito além do esperado. Você está pronto para enfrentar suas reflexões?

08 de agosto de 2017 - 11:32

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ALERTA: este texto possui spoilers de variados games

Além de ser uma ferramenta cultural capaz de atingir vários públicos, os videogames são conhecidos pela diversão e entretenimento que oferecem ao seu público. Porém, não é apenas disso que são formados os jogos. Por trás de todo o entretenimento, há histórias complexas e humanas que nos fazem refletir sobre como é a vida e em como ela nem sempre é algo feliz e colorido.

Confesso que meu primeiro contato com algo “pesado” no mundo dos games se deu tarde, com Heavy Rain. Logo a princípio, você comanda Ethan, um arquiteto com sua família formada ao estilo “comercial de margarina”. Um pequeno descuido no shopping e você presencia a morte de um dos seus filhos. Gostaria de dizer que é o único baque que o game oferece, mostrando o terror de um assassino serial que age por trás da vida dos quatro personagens centrais da trama.

Ethan, de Heavy Rain, vivia normalmente até uma onda de caos chegar em sua vida através do assassino do Origami.

Neste caso, o próprio game dita a atmosfera que você encontrará desde o princípio. Uma história densa, cheia de camadas e opções que você pode tomar para tentar fazer o que achar correto. E, independente se for bem ou não, a história vai continuar e te entregar um final conforme suas decisões, sendo que cada uma vai desafiar sua moral e ética sobre o que faria em situações extremas.

Outros games não te dão opção. Assim como o primeiro, The Last of Us também oferece uma crise emocional logo em seu princípio, presenciando a transformação de um dos melhores amigos de Joel em infectado e à morte da própria filha através de circunstâncias de pânico. Nos primeiros 15 minutos de game a atmosfera mostra o quanto a realidade pode nos atingir de formas inimagináveis e te mostra as motivações do brutal e impiedoso personagem até seu encontro com Ellie.

Joel, de The Last of Us, carrega a filha após sua morte, sem condições de seguir em frente no meio de um “apocalipse zumbi”

 Life is Strange também não é conhecido por manter um “final feliz”, sendo que suas opções finais incluem a morte de uma personagem ou a destruição de toda a cidade através de um tornado (o que, óbvio, inclui várias mortes no currículo). Batman Arkham Knight vai além e nos coloca na pele do Coringa, mostrando o maior medo do palhaço do crime. Um ano após sua morte e quem se lembra dele? Foi até chamado de “Charada” por um par de personagens e chegou à conclusão que enfrentar o Batman e causar o caos por tanto tempo não foi o suficiente para deixar sua marca em Gotham City.

Apesar do histórico, Final Fantasy nunca foi um game feliz. O primeiro que joguei, o sétimo, me causou traumas que levo até hoje com a morte da Aeris pelas mãos do vilão principal. Jogando Final Fantasy Type-0, que achei um game muito bem-feito, nos leva a um final que os doze protagonistas da história se sacrificam para salvar o planeta. Mas não antes de deixar uma cena forte deles conversando e se divertindo, para quando uma pessoa surgir no ambiente só ver as armas de cada um e te deixar imaginando que eram apenas fantasmas.

A sala 0 de Final Fantasy Type-0 tinha uma união muito forte durante todo o jogo, até seu derradeiro fim.

World of Final Fantasy, que de longe é um dos mais divertidos e bem-humorados que já conheci, segue à risca. No “grand finale” você descobre que os vilões que você mata são os pais que tentou salvar o jogo inteiro e o protagonista masculino se sacrifica para deixar a irmã viva contra o grande inimigo final. Tentando recuperar a situação, o monstro Tama então se sacrifica para voltar ela no tempo e tentar fazer a diferença.

Tudo que citei acima é apenas uma camada, se contar de cada jogo que tenha uma vertente impactante teremos um livro aqui. Porém, temos de avaliar que os jogos não são apenas algo divertido, o que implica na sua semelhança com materiais culturais como filmes e livros. Nem todas histórias são de alegria e diversão, algumas sendo carregadas de drama desde o princípio e outras com reviravoltas extremas.

Tentando se aproximar do que temos em nossa realidade, os videogames avançaram bastante a questão narrativa. Hoje os autores não têm mais medo de atingir os jogadores com mortes, destruição ou com reviravoltas que possam surpreender quem está atrás dos controles. A vida é imprevisível, uma hora estamos aqui e na próxima? Onde estaremos? Acompanhando essa ideia, os games “conspiram” para te preparar para momentos assim. Te dizer, sem muitas palavras, que a vida é dura. Pesada. Que não é feita apenas de luz e sorrisos.

Alan Wake, de Xbox 360, mostra várias questões de transtornos psicológicos e te fazem questionar se tudo é real ou apenas uma ilusão.

Muitas pessoas hoje evitam os videogames por acreditarem que eles são algo infantil e que não trariam profundidade como assistir a um filme, por exemplo. Por acreditarem que seja “besteira”, que se o filho/sobrinho gostam é como um desenho animado e pronto, adultos perdem a chance de se encantar com narrativas tão grandes e bem formuladas que seriam capazes de desestabilizar até a mais fria das almas (liberdade poética, não me julguem).

Independente das suas intenções ao ligar o console, as empresas querem ter certeza que terá variedade e seu gosto será abrangido no processo. Em alguns games, um choque de realidade nos fazem refletir em como levamos a nossa própria vida e como certas ações nos impactam. No maior estilo “pense dessa forma, veja desse lado” para quando chegar o momento decisivo, você já ter uma “experiência” que mostrou alguns valores.

O videogame reproduz o que temos na vida real, trazendo tudo que conhecemos e vivemos aqui para a forma digital. Então por que não acreditar que há algo ali que seja capaz de nos emocionar ou lidar de forma difícil? Mostrar para nós que o mundo possui um lado escuro e não apenas ele, mas nós mesmos também. Encontrar nossa natureza real de forma digital, não parece tão impossível certo?

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