Ponto de vista
A cidade entre nós: o direito de permanecer
Alessandro Lopes
Há um momento em que o morador deixa de olhar a cidade como espaço comum e começa a tratá-la como extensão de sua sala, a praça precisa estar limpa, mas não pode ter jovens demais, o banco deve existir, mas ninguém pode permanecer muito tempo, a calçada deve estar livre, desde que não haja vendedor, artista, cachorro, bicicleta ou conversa interrompendo o caminho.
Queremos o espaço público, mas estranhamos o público quando ele aparece.
A praça com crianças parece desorganizada, o grupo de idosos ocupa demais, os adolescentes assustam, os skatistas fazem ruído, o ambulante destoa da paisagem, o turista atrapalha, o morador de rua constrange.
Aos poucos, cada presença que não se parece conosco passa a ser percebida como invasão.
É claro que a cidade precisa de regras, cuidado, acessibilidade, segurança e manutenção, ninguém defende abandono em nome da diversidade, mas há diferença entre organizar o espaço comum e selecionar quem merece estar nele.
Uma cidade não se mede apenas pela beleza de suas fachadas, mede-se também pela quantidade de vidas que conseguem caber entre elas.
Quando toda presença alheia parece excessiva, talvez não estejamos protegendo o espaço público, talvez estejamos diminuindo sua maior riqueza, a possibilidade de encontrar quem não veio do mesmo endereço, não pensa da mesma forma e, ainda assim, tem o mesmo direito de estar ali.
Quando retiramos bancos para impedir permanências, cercamos jardins para evitar encontros, expulsamos atividades em vez de mediá-las e transformamos cada canto em lugar de passagem, talvez estejamos produzindo ordem apenas na aparência.
Praça sem gente não é ordem, é abandono bem varrido.
O espaço público é a sala de estar de quem mora em apartamento pequeno, o quintal de quem não tem quintal, o caminho de quem trabalha, o recreio de quem cresceu, o descanso de quem envelheceu, é onde pessoas que talvez nunca fossem convidadas para a mesma casa aprendem, ainda que por alguns minutos, a dividir o mesmo mundo.
Pertencer não significa mandar no lugar, significa reconhecer-se nele sem precisar apagar os demais.
Talvez por isso algumas cidades sejam bonitas e, ainda assim, pareçam frias, foram planejadas para ser contempladas, não vividas, funcionam bem nas fotografias, mas falham no encontro, têm paisagem, porém pouca humanidade.
A cidade verdadeiramente segura não é aquela onde ninguém permanece, é aquela onde diferentes pessoas podem permanecer sem medo.
Quando toda presença alheia parece excessiva, talvez não estejamos protegendo o espaço público, talvez estejamos diminuindo sua maior riqueza, a possibilidade de encontrar quem não veio do mesmo endereço, não pensa da mesma forma e, ainda assim, tem o mesmo direito de estar ali.