Ponto de vista
Clima estranho
Quando o time não convence, a torcida costuma andar de mansinho, olhar para os lados, pensar e repensar se vestirá a camisa da paixão preferida para sair na rua. O futebol, como termômetro das relações culturais, nos ensina. Inevitavelmente, nos dá os sinais adequados de quando a vitória se desenha ou de quando a derrota cairá em nossos colos como a bomba nuclear que deixa somente sombras como rastros.
A Copa do Mundo é a equipe que, por enquanto, falha em nos seduzir. O clima na rua é estranho. Tenho a sensação, ao andar pela cidade, de que a Copa não é conosco. Parece que não nos diz respeito, uma espécie de couraça para nos proteger de decepções. Ou seria a cicatriz de quem sabe que – atrás do gol, nos vestiários, longe da festa – fomos enganados, roubados, como diz a neta de João Havelange, a moça que desconhece o peso das palavras?
A desconfiança deve sair de cena para que o patriotismo de ocasião se instale diante da TV. Mas os “200 milhões de guerreiros”, a turma do “não desisto nunca”, a trupe do “somos todos um só” só vai nascer mediante uma condição: é vital vencer. O grau de entusiasmo depende, exclusivamente, de 11 sujeitos. A cada partida de resultado triunfal, aumentará o nível de amnésia dos eufóricos.
Somos desconfiados porque estamos cansados. Somos desconfiados porque, embora inertes – salvo rompantes de uma minoria ou de uma maioria de vez em nunca -, temos consciência de que o país deu vários passos além das pernas. Caímos, mas fingimos que ninguém nos enxerga.
Diante da Copa do Mundo, somos aquela mãe sempre disposta a perdoar, desde que o filho faça uma nova promessa de mudança de vida. Acreditamos que o país tem saída, mesmo que todos os equívocos apontem para o caminho oposto, o da corrupção. E não me refiro somente ao bando que autorizou, construiu e defendeu elefantes brancos na Amazônia, no Pantanal, no Cerrado, nas dunas do Nordeste, na riqueza geográfica de campos de futebol inúteis após julho.
O clima é estranho porque, inconscientemente, sabemos que a Copa do Mundo nos reflete. O futebol é nosso espelho de conivência, ganância e negligência. A corrupção e a incompetência não são sintomas patológicos exclusivos dos gabinetes de Brasília. A corrupção não se mede somente nos milhões de reais incinerados em obras faraônicas ou depositados em contas de paraísos afrodisíacos.
A desconfiança também acena de longe, lá do último degrau da arquibancada, porque a Copa do Mundo expõe nossos valores culturais mais desprezíveis. Medimos o nível de negligência pelo cotidiano, pela miserável e ordinária sequência de atos de pessoas comuns. Do vendedor de cachorro-quente que negocia a salsicha como filé mignon ao taxista que cobra o preço da corrida equivalente a uma missão espacial a Marte. Das diárias de hotéis que fingem estar em Dubai aos restaurantes que nos entopem de arroz para abrigar dois camarões.
Só a seleção brasileira poderá nos salvar. O time brasileiro tem que ganhar a Copa do Mundo. A vitória prolongará o Carnaval. A vitória esticará o patriotismo até outubro, quando teremos – de fato – o jogo mais importante do ano. Vencer significa manter os móveis nos mesmos lugares da sala.
Somos desconfiados e inertes. O futebol, em Copa do Mundo, é uma aula magna, que serve para as eleições. Para os jogadores que elegem passivos, o empate é o melhor resultado. Para quem não pensa no jogo, apenas o assiste, zero a zero seria uma ótima goleada, independentemente do técnico.