Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

A Copa do mau humor

O legado de frustrações acumulado contaminou de forma negativa a avaliação da população sobre os rumos do País

10 de junho de 2014 - 11:39

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Nesta quinta-feira (12) tem início oficialmente a Copa no País e, ao contrário da primeira versão brasileira realizada em 1950, chama a atenção o fato de que boa parte da população não demonstra grande entusiasmo com o evento futebolístico mais importante do mundo. Os sentimentos de ceticismo e pessimismo presentes no cotidiano de vida já acompanham os brasileiros desde o último ano, quando eclodiram protestos generalizados contra os serviços públicos de má qualidade, a inflação em alta e baixo crescimento econômico verificado em diversos segmentos produtivos.

O legado de frustrações acumulado contaminou de forma negativa a avaliação da população sobre os rumos do País, um fenômeno inédito em se tratando de Brasil, como revelou levantamento realizado pelo instituto de pesquisa Pew Research Center, um dos mais importantes dos EUA. O resultado do trabalho de campo realizado entre os dias 10 e 30 de abril último, que ouviu a opinião de 1.003 brasileiros com mais de 18 anos de várias regiões, foi pragmático: 72% se disseram insatisfeitos com a situação do País. A economia tem papel preponderante no mau humor nacional generalizado: 67% consideram hoje a situação econômica ruim, após quatro anos seguidos em que a percepção positiva foi dominante.

Além da preocupação com os rumos da economia, a criminalidade e a saúde (83%) e a corrupção no meio político (78%) aparecem como principais preocupações, que somadas à falta de oportunidades de emprego (72%), o hiato entre pobres e ricos (68%), a baixa qualidade das escolas (64%) e o endividamento público (56%) completam a lista de problemas mais citados pelos entrevistados.

Como não poderia ser diferente, o pessimismo estendeu-se também à opinião dos brasileiros sobre a Copa: 61% dos entrevistados consideraram o evento como um fator negativo para Brasil, pela possibilidade de desvio do dinheiro que seria investido em escolas, previdência e outros assuntos públicos. No mesmo sentido, observou-se um contínuo ceticismo sobre os benefícios de acolher um encontro de tal magnitude internacional, ao ponto que 39% dos consultados consideram que ele prejudicará mais a imagem do Brasil no mundo.

Descontados os excessos de mau humor dos que demostram repulsa à realização do evento, e ufanismo dos que superdimensionam seu valor e importância para o futuro do País, é mais que notória a percepção da profunda mudança comportamental ocorrida na sociedade brasileira, que deverá ficar ainda mais evidente no período eleitoral que sucederá a Copa. Dessa forma, mais do que nunca, será exigido dos pleiteantes aos cargos públicos elegíveis um entendimento profundo dos anseios populares, a adequação do discurso à realidade cotidiana de um povo que, ao que parece, já não mais se sacia com pão e circo. A Copa no Brasil de fato ressaltou o entendimento de nossas mazelas e prioridades, porém não há como culpá-la pela nossa desesperança e mau humor.