Ponto de vista
De Menor
O público pôde conferir semana passada (3), no Cinespaço, em Santos, a pré-estreia do filme De Menor, premiado como melhor filme na Première Brasil pelo Festival do Rio 2013. Seu enredo utiliza o tema da maioridade penal para contar a história de uma jovem que mora com o irmão mais novo em Santos e que trabalha como advogada de defesa em casos que envolvam crianças e adolescentes. O longa-metragem é resultado de estreia da paulistana Caru Alves de Souza como diretora, que usou como ponto de partida para o seu roteiro relatos de uma prima, também advogada. A estreia oficial do filme nos cinemas aconteceu no último dia 4 de setembro.
Antes da sessão, os que aguardavam na recepção puderam conversar e tirar fotos com a diretora e parte do elenco do filme, com destaque para a experiente atriz Rita Batata (28) que, além de receber um prêmio no Festival do Cinema Sul-Americano de Marselha como melhor atriz pelo trabalho em De Menor, coleciona outros dois pela atuação nos filmes Não Por Acaso (2007) e Ressaca (2009), e o ator Giovanni Gallo (19), destaque da série criada pelo cineasta Cao Hamburger para a TV Cultura, Pedro e Bianca, considerado em fevereiro deste ano a melhor série pelo International Emmy Kids. Em De Menor (2013), os atores interpretam os irmãos Helena e Caio.
Crítica do filme
Após rodar pela América do Sul e Europa disputando prêmios em diferentes festivais, não há como negar que a história narrada em De Menor tenha sido apresentada em momento propício no Brasil. Em época de eleições, ainda mais presidenciais, possibilitar uma reflexão – mesmo achando que não seja o principal objetivo do filme – sobre a maioridade penal e, mais importante, sobre a vida dos jovens que são transformadas em estatísticas, “inspiração” para frases do tipo “bandido bom é bandido morto”, ou simplesmente para alimentar o jornalismo espetáculo dos programas policiais, foi uma excelente escolha feita pela produtora e roteirista Caru Alves de Souza, filha dos cineastas Tata Amaral e Francisco Cesar Filho, em sua estreia como diretora.
A câmera enquadra os pés de Helena (Rita Batata) enquanto esta sente a areia macia da praia e o vai e vem da água do mar. Por meio dos elementos da natureza, a calmaria logo remete à liberdade e transforma aquele local em um espaço sagrado. Por fim, de forma abrupta, o alto e distante som reproduzido por um navio quebra o silêncio e acorda a protagonista, que vai de um sonho para uma realidade que lhe reservava um forte golpe. Logo nos primeiros planos do filme é possível sentir a segurança e criatividade da diretora ao utilizar poucos cortes e farto som ambiente, ferramentas que logo prendem a atenção do espectador à trama.
Um bem ensaiado e longo plano-sequência caminha intimamente atrás da personagem a fim de nos convidar para conhecer rapidamente o ambiente em que ela vive. O trajeto, um lance rápido – e inteligente – da câmera indica a profissão de Helena ao filmar um calhamaço, a bíblia dos advogados: um exemplar do código civil. No banheiro alguém toma banho, é Caio (Giovanni Gallo), seu irmão mais novo, apresentado pelo reflexo de um espelho, detalhe que, somado a planos posteriores, que narram uma carinhosa e sentimental relação entre irmãos, subjetivamente mostra o quanto um se identifica pelo olhar do outro.
E é exatamente a comunicação dos personagens por meio do olhar que transforma determinados momentos do filme em cenas memoráveis. Tomemos como exemplo as sequências que mostram os adolescentes Ronivon (André Nascimento) e Matheus (Diego Pablito) sendo interrogados durante audiências realizadas na Vara da Infância e Juventude de Santos. O enquadramento no rosto dos meninos, fazendo um close e destacando seus olhos, passa uma real sensação de medo e derrota. Ali, naquele momento, sendo interpelados pelo juiz Carlos (Caco Ciocler) e os advogados de acusação (Rui Ricardo Diaz) e defesa, Helena, deixam de ser jovens infratores e passam a ser vítimas de um círculo vicioso, uma consequência da exclusão social e do abandono familiar.
De Menor é um filme que parece não ter nascido para comover ou levantar uma bandeira ideológica, mas que busca descrever da maneira mais humana possível uma relação que facilmente faz o espectador se colocar no mesmo lugar. E o melhor: funciona. Por ser o primeiro filme da diretora Caru Alves, é digno de palmas por fugir das fórmulas viciadas que permeiam as produções nacionais e por apresentar assuntos tão poucos representado nas telas de cinema.
De Menor
(Brasil, 77 min., 2013)
Direção: Caru Alves de Souza
Distribuição: Espaço Filmes
Estreia: 4 de setembro
