Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Desinteresse perigoso

02 de agosto de 2014 - 09:00

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Balanço oficial apresentado esta semana pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) revelou o crescimento do eleitorado brasileiro apto a votar em outubro próximo. Em 2010, o número de eleitores totalizava 135, 8 milhões, agora são 142,8 milhões, um crecimento de 5,17%. De certa forma, a evolução do eleitorado acompanhou o crescimento populacional do País, principalmente no que diz respeito aos perfis sociais e econômicos. Além de confirmado o maior contingente feminino, que perfaz quase 52% do total, pela primeira vez o número de eleitores com graduação superior (8 milhões) superou o de analfabetos (7,4 milhões), confirmando a tendência de ampliação dos níveis de escolaridade.

Um dado relevante, porém, chamou a atenção: a queda no número de jovens eleitores na faixa etária de 16 e 17 anos. De 2010 para cá, esse grupo caiu de 2,3 milhões de eleitores para os atuais 1,6 milhão, fazendo crer que, por se tratar de voto facultativo, o desinteresse pela política é compartilhado por uma parte expressiva da juventude brasileira. Razões para esse comportamento não faltam. É preciso reconhecer que as muitas experiências negativas abstraídas do cenário político ao longo da história recente, com a proliferação de desmandos administrativos e atos de corrupção, geraram descrença e, por isso, ampliaram o grau de desinteresse dos eleitores, sobretudo entre os mais jovens.

Contudo, mesmo com todas as imperfeições do sistema vigente – e o conceito pejorativo que forja a imagem da prática eleitoral -, ainda é o exercício do voto livre e democrático o principal instrumento de transformação de uma sociedade que busca justiça social e prosperidade. Por isso, seu valor não pode ser diminuído ou desprezado, mesmo que se condene a obrigatoriedade do comparecimento às urnas. Além de cumprir uma exigência formal e legal, ao eleitor cabe o comprometimento e a responsabilidade na escolha de seus representantes, por meio de uma análise criteriosa do currículo, histórico de vida pública e comunitária e, principalmente, a real capacidade para exercer o cargo a que eles se oferecem para ocupar.

Mais do que nunca é necessário o entendimento de que, além da presença nas urnas, espera-se uma postura mais participativa da população nas decisões dos nossos governantes e legisladores, por meio do engajamento nas entidades de classe, conselhos de moradores e organismos civis de representação. A participação do eleitor no processo de escolha e fiscalização do trabalho desenvolvido pelas administrações públicas reveste-se de extrema importância, porque representa uma das poucas medidas capazes de impedir a continuidade de atos lesivos ao erário. Mais do que exigir o respeito às leis e normas, devemos cobrar com vigor a prática cotidiana da ética, honestidade e caráter dos escolhidos para nos representar.