Ponto de vista
Dois irmãos
Era uma vez dois
irmãos. O mais velho nasceu em 1927. O mais novo chegou ao mundo há 20 anos. O intervalo
de nascimento já seria assombroso para a história da medicina, mas fica ainda
mais bizarro quando descobrimos que a mãe é a mesma.
Dona Promessa pariu seus dois filhos por inseminação
artificial. O pai é desconhecido. O que Dona Promessa fez, ao longo dos anos,
foi trocar de marido para se sentir rejuvenescida. A cada novo padrasto dentro
de casa, nascia nos filhos a esperança de um protetor até o fim.
Ambos
alimentavam o sonho de ter uma vida plena, com recursos e acompanhamento de
perto para que deixassem de ser o que mais detestavam: um projeto da mãe.
Depois de uns três padrastos o número é impreciso por
conta dos amantes ocasionais -, o filho mais velho saiu de casa. Cansou-se de
uma existência embrionária. Sentia-se uma criança mal amada. Sentia que se ficasse
em casa jamais se tornaria um adulto.
Magoada, Dona Promessa o enterrou em vida. Tinha um filho
caçula, mais popular entre os parentes ingênuos, todos crentes que o menino
finalmente vingaria. O garoto acreditou nas profecias maternas. Jurou que
jamais seria como o irmão, um projeto inacabado de família.
O menino foi coberto de mimos. Ganhou até um animal de
estimação. O tucano substitua o irmão. Fingia dialogar com o bicho, que
tagarelava como um papagaio. Trabalhar 24 horas por dia, sete dias por semana.
Era a frase que o menino mais adorava ouvir do tucano, que gritava sempre que
um flash se acendia.
Dona Promessa sentia um vazio. Não percebia que a
ausência do filho mais velho a machucava. Convivia com a intuição de que alguém
precisava fazer companhia ao caçula.
Em 2010, Dona Promessa tomou uma decisão. Ela importou um
primo dos meninos, na casa dos 50 anos de idade. O problema é que o primo
apresentava uma deficiência: era menor do que os demais, uma maquete de gente.
Mesmo assim, Dona Promessa fez festa. Veio até um tio distante, José Serra,
cortar o bolo. Afinal, o primo tinha grife, nome e sobrenome: Ponte
Santos-Guarujá.
Naquele mesmo ano, uns seis meses depois, dois
acontecimentos alteraram a biografia da família. O primo morreu. Dizem as más
línguas que Dona Promessa o enterrou sem derramar única lágrima.
A boa notícia foi que o filho mais velho (seria o bom
filho?) à casa retornou. Embora idoso, o Túnel Santos-Guarujá não passa de uma
criança por vezes simpática, suficiente para alegrar o irmão, que cresceu um
pouquinho este ano. Pena que ainda não consegue ficar de pé. O VLT, apelido
carinhoso do pivete, sofre até hoje as consequências de uma gravidez mal
planejada.
Nas últimas duas semanas, foi possível ver os dois irmãos
brincando embaixo da mesa, nas reuniões de família, na casa de Dona Promessa.
Até o tucano, que andava meio amuado, andou berrando com os garotos. Túnel e
VLT apostam que mamãe os tratará melhor ano que vem, quando os clientes farão votos
de sucesso a mais um aniversário de Dona Promessa.
Para desgosto deles, Dona Promessa jurou de pés juntos, no
último encontro familiar, que estava grávida. E que Túnel, o mais velho, teria
um irmão gêmeo. Outro túnel? Até o tucano duvidou. Dúvida que contaminou todos
os parentes, cientes que aquela mãe nunca quis que seus filhos crescessem.
Nunca quis que seus projetos virassem obras feitas.