Ponto de vista
Em Santos, comer é luxo
Santos se tornou uma das cidades mais caras do país quando
o assunto é comida. E o assalto à garfo e faca se tornou mais evidente durante
o verão. Sedentos por faturar em cima dos turistas, o comércio resolveu
multiplicar os índices inflacionários locais.
Uma água de coco na orla da praia saltou de R$ 3 para R$ 5.
Um suco nos carrinhos na areia custava, em média, R$ 6 na semana passada. Hoje,
sai por R$ 8. Com tanta ganância, os ambulantes poderiam informar que o
empréstimo das cadeiras e dos guarda-sóis está embutido no preço.
Nos quiosques, os preços indicam aos turistas e moradores
que eles se encontram Saint-Tropez ou nas Ilhas Canárias. No canal 6, uma
porção de frango à passarinho custa R$ 50. A tradicional isca de peixe alcança
R$ 79, o dobro do que é cobrado em botecos. A porção de porquinho não sai por
menos de R$ 74. Deve ser a folhinha de alface que decora o prato.
A
porção de calabresa, mais popular, custa R$ 44, um terço mais caro do que em
bares e cinco vezes o preço de custo. Entre as bebidas, a garrafa de cerveja chegou
a ser vendida em restaurantes por R$ 30.
É óbvio que os comerciantes sentem a necessidade de
compensar a baixa temporada, mas se esquecem de que os preços abusivos assustam
também os moradores. Muitos já se organizam, por exemplo, nas redes sociais e
propõem boicote ao comércio local por meio de reuniões em casa e compras de
produtos em supermercados.
O comportamento de ambulantes e comerciantes reforça dois
pontos. O primeiro é a mentalidade de veraneio, e não de cidade turística. A postura
não é prerrogativa do comércio santista. Na década passada, por exemplo, a
Prefeitura de Praia Grande precisou intervir para que os quiosques reduzissem
preços na temporada. O símbolo do abuso, na época, era a casquinha de siri.
A cobrança abusiva é um grão de areia na fragilidade das
políticas públicas de turismo. Políticas regionais, muito mais profundas do que
uma linha de ônibus quase sempre com baixa ocupação que percorra os pontos
turísticos da suposta região metropolitana. As cidades ainda se comportam como
estâncias de veraneio, incapazes de segurar o visitante durante o ano todo,
seja por conexões com empresas de pacotes, seja com diálogos com instituições
políticas superiores.
O segundo ponto é que Santos ficou cara para comer e beber,
com sol ou chuva, com ou sem temporada. O Boqnews divulgou, em março de 2013,
pesquisa feita pelo Instituto Análise, por encomenda da Associação das Empresas
de Refeição e Alimentação Convênio para o Trabalhador.
Na
pesquisa, Santos é a mais cara do Estado de São Paulo na categoria
self-service. Aqui, a refeição custa, em média, R$ 21,71. No Brasil, Santos só
perde para o Rio de Janeiro, onde a refeição sai por R$ 22,65.
Santos
fica em segundo lugar na categoria à la carte, atrás somente da Grande São
Paulo. Mas a diferença não paga o café: R$ 1,43. A média de preço das
refeições, independentemente de categorias, é superior a do Estado de São
Paulo. Em Santos, R$ 25,67. Além do preço, ainda prevalecem as queixas quanto ao
atendimento. São comuns as reclamações a respeito do serviço prestado. Como me
disse uma consumidora: eles acham que estão me fazendo um favor.
É
essencial estreitar o diálogo entre Prefeitura, Sindicato de Hotéis, Bares e
Restaurantes, ambulantes e permissionários de quiosques. Afinal, tanto
ambulantes quanto quiosqueiros recebem autorizações e concessões públicas para
trabalhar. Uma decisão precisa ser tomada antes do Carnaval, daqui um mês, e
antes da Copa do Mundo, em junho.
Deixamos
de ser a região dos farofeiros, mas as marcas do veraneio infelizmente permanecem.
A neurose de faturar em curto prazo, na prática, só afugenta quem veio para
gastar. A ganância colabora, assim, para a multiplicação de isopores e coolers
como parceiros de cadeiras e guarda-sóis.