O assassinato do universitário Matheus Demétrio Soares, de 19 anos, em frente à Universidade Santa Cecília gerou choque, indignação e discursos mais agressivos sobre a falta de segurança pública. Essa é a face óbvia e necessária de uma morte que não pode ser tratada como número de balancete burocrático.
No entanto, uma das consequências deste crime é tão perversa quanto assustadora. Quando cheguei em casa, após deixar a mesma universidade, entrei na Internet e me vi sufocado pela quantidade de notícias, relatos e comentários sobre o assassinato. O fenômeno-pólvora é rigorosamente normal dentro da própria lógica das redes sociais.
O problema é que, com ele, brota o lado doentio deste teatro virtual. Neste jogo de cena, prevalecem as aparências e a busca por reconhecimento e pertencimento imediato. É um protagonismo capenga que desrespeita a própria vítima e seus familiares numa exposição do grotesco como se o próprio crime em si não fosse um murro na cara.
Logo após a morte de Matheus, era possível ver, em rede social, fotos do corpo, de uma proximidade que permitia ver detalhes impublicáveis. Vídeos circulavam de clique em clique, apontando a mesma morbidez de quem compartilha uma informação; ou melhor, uma imagem que nada acrescenta ao contexto, que cultiva e desvaloriza simultaneamente a morte.
Dizer que somos escravos da imagem hoje é redundante, porém teimamos em nos esquecermos disso. Sentimo-nos protegidos por um frágil filtro chamado computador/celular, de modo que acreditamos ter um salvo-conduto para atropelar valores, para não preservar uma pessoa que acaba de ser assassinada e merece, antes de qualquer coisa, respeito.
Somos um exército de famintos por fama, selvagens em publicar por publicar, em testemunhar sem pedir maiores explicações. Neste sentido, caminhamos pelas opiniões imediatas, superficiais, que retratam o quanto construímos raízes e somos reféns voluntários atrás dos teclados ou nos sofás da sala.
As fotos do corpo do estudante descoberto me causam a sensação de quem as tirou, naquele momento, não enxergava um ser humano, mas somente um corpo sem vida, que inevitavelmente alimentaria o show de horrores, autorregulado pelo crime da semana, pela imagem que nos leva a comer mais um pedaço de pizza. É a pressa que desumanizou Matheus Demétrio, a imagem pela imagem que não apenas expôs uma vítima, mas tentou apagar seu nome.
Fotos e vídeos, inclusive divulgados na imprensa, são uma tentação fugaz de que todas as pessoas desejam digerir o horror em estado puro. Que estão sedentas por detalhes sórdidos de uma violência que choca como fato, e não como simulação dele.
Soa como uma distorção comportamental acreditar que as imagens possuem o mesmo peso e, portanto, merecem as mesmas medidas. A obsessão por registrar todos os instantes de uma vida anônima não se encaixa quando a dignidade humana, seja do próprio retratista ou da biografia alheia, é estilhaçada para que alguém diga que estava lá. E daí que estava lá? Isso não a torna mais privilegiada como co-participante de um falso reality show.
A velocidade com que muitos exprimem suas opiniões também mascara a irresponsabilidade de quem julga sem passear pelo cenário completo. Por que devemos julgar, condenar e definir a pena a partir de um episódio que pouco ou nada sabemos? Já não servem como elementos o crime em si, mais a dor e o sofrimento das pessoas próximas ao estudante?
Matheus, quando perdeu seu nome, também perdeu – para muitos – a condição de vítima. Se ele estava ali, era porque fazia algo errado. Se ele estava ali, era porque bebia e consumia drogas. Se ele estava ali, era porque decepcionava seus pais e demais familiares que tanto fizeram para que chegasse à universidade.
A morbidez destes argumentos é semelhante à retórica daqueles que defendem que uma mulher merecia ser estuprada porque usava uma roupa dita provocante. Matheus Demétrio é e sempre será mais uma vítima da violência urbana. Não o conheci, mas posso dizer – com o mínimo de decência – de que ele não merecia morrer. A hipocrisia não pode funcionar como pena de morte ou pano de fundo para nos escondermos no individualismo ou na limitada consciência social.
O assassinato do estudante universitário Matheus Demétrio Soares me faz lembrar de um caso no Rio de Janeiro, no final da década passada. Na ocasião, um carro foi incinerado com dois corpos dentro e abandonado na Linha Vermelha. Só que as duas cabeças estavam no capô do veículo. Muitos motoristas não apenas pararam para ver o carro, como desceram e tiraram fotos das cabeças. Uma perversidade pré-selfie.
Numa cultura em que evitamos falar de fato sobre a morte, preferimos brincar com ela como se fosse um filme de ficção. A morte deveria sempre nos chocar, e não somente os vivos que se divertem com ela.
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