Filho de Saul | Boqnews

Ponto de vista

Filho de Saul
bannerExistia uma época em que todos falavam que para ganhar um Oscar de filme estrangeiro uma produção tinha que ter um garotinho e um velho, se eles fossem judeus, melhor ainda e se a trama se passasse durante o holocausto os concorrentes nem perdiam tempo escrevendo seus discursos. Filho de Saul ganhou o Oscar, e tem todos esses elementos (ok, sem o velho!), mas levou para casa a estatueta do rapaz careca por outras razões. O filme húngaro, que na verdade é a estreia do diretor László Nemes em longas metragens, conta a história de Saul, um sonderkommando (prisioneiro que serve como espécie de empregado dentro dos campos de concentração) que dá de cara com um menino morto e resolve fazer de tudo para conseguir enterrá-lo com toda dignidade que, normalmente, o momento não lhe permitia. Mas Filho de Saul não é sobre isso, mas sim sobre um homem que se agarra nessa ideia de que precisa enterrar “seu filho” à todo custo, como um bastião de sua sanidade. Saul enxerga na situação a única possibilidade de não enlouquecer em meio aos horrores que o rodeiam. Um personagem frágil, complexo e que luta até o último momento para conseguir, mais que sobreviver fisicamente, manter sua sanidade. sonofsaul2-1600x900-c-defaultE o grande espetáculo do ganhador do Oscar se dá na forma como isso é contado. Nemes parece tomar todas decisões corretas em termos de estática e de técnica, e o resultado é um sufocante drama sobre o holocausto. Daqueles que te perseguem por algum tempo após os créditos finais. Parte desse sufoco vem logo de cara, ao perceber que Filho e Saul está no formato 1.37:1, que é mais quadrado que o widescreen e era o usado por Hollywood antes dos anos 50. Nesse caso, a escolha não passa pelo glamour, mas sim pelo modo como o formato comprime a ação ao redor de Saul, que sim, está sempre no foco da câmera. Como se estivesse sempre sufocado e espremido por esse mundo, cercado por esses muros, tanto no campo de concentração, quanto no filme. Para completar a experiência asfixiante, Nemes coloca seu Saul em uma profundidade de campo tão baixa, que nada ao seu redor parece estar em foco. E isso fica claro logo de cara, no plano inicial, onde a câmera fixa e embaçada espera Saul se aproximar bem perto para encontrar esse foco “colado à tela”. Na verdade, nem tão colado assim, já que a ideia é justamente que o personagem se coloque em meio a esse mundo desfocado, onde os corpos empilhados fogem dos olhos, onde nem o prisioneiro executado, arrastado pelo próprio Saul, não tem forma a não ser de um borrão. Como se Saul precisasse disso para manter-se firme em sua tentativa quase insana de permanecer vivo. Saul só vê seu mundo tomar forma enquanto passa por essa jornada para enterrar “seu filho”, mas ainda assim parece anestesiado pelo horrores que o cercavam. Nesse momento, Saul se perde em meio a uma pilha de cadáveres e chega bem perto de sua morte sem nem por um segundo pestanejar. Como se o mundo, mesmo agora em foco, não mais fizesse diferença para ele. Como se sua vida não valesse mais a pena. Um terceiro detalhe técnico que cria um filme ainda mais marcante são seus planos longos. Saul anda pelo campo de concentração enquanto Nemes o acompanha com sua câmera sem cortes, o que obriga a existência de cenários enormes e ligados, já que em certos momentos é fácil sair dos fornos e ir até a um outro lugar, ou como no final, até um rio. Resumindo, Filho de Saul cria um mundo inteiro e coloca o espectador dentro dele. Filho de Saul então é um daqueles momentos onde um diretor consegue colocar a técnica à serviço da narrativa, um filme onde a sensibilidade da trama ganha ares épicos diante de seu formato. E se alguém achar ainda que Filho de Saul levou o Premio da Academia por ter a “fórmula do Oscar”, pode estar perdendo um belíssimo exemplar de um cinema total, que usa tudo que tem em mão para contar uma história. https://www.youtube.com/watch?v=qXHs5jMV_eg Críticas sobre esses e outros filmes você pode encontrar no CinemAqui 
22 de março de 2016

Filho de Saul

bannerExistia uma época em que todos falavam que para ganhar um Oscar de filme estrangeiro uma produção tinha que ter um garotinho e um velho, se eles fossem judeus, melhor ainda e se a trama se passasse durante o holocausto os concorrentes nem perdiam tempo escrevendo seus discursos. Filho de Saul ganhou o Oscar, e tem todos esses elementos (ok, sem o velho!), mas levou para casa a estatueta do rapaz careca por outras razões.

O filme húngaro, que na verdade é a estreia do diretor László Nemes em longas metragens, conta a história de Saul, um sonderkommando (prisioneiro que serve como espécie de empregado dentro dos campos de concentração) que dá de cara com um menino morto e resolve fazer de tudo para conseguir enterrá-lo com toda dignidade que, normalmente, o momento não lhe permitia.

Mas Filho de Saul não é sobre isso, mas sim sobre um homem que se agarra nessa ideia de que precisa enterrar “seu filho” à todo custo, como um bastião de sua sanidade. Saul enxerga na situação a única possibilidade de não enlouquecer em meio aos horrores que o rodeiam. Um personagem frágil, complexo e que luta até o último momento para conseguir, mais que sobreviver fisicamente, manter sua sanidade.

sonofsaul2-1600x900-c-defaultE o grande espetáculo do ganhador do Oscar se dá na forma como isso é contado. Nemes parece tomar todas decisões corretas em termos de estática e de técnica, e o resultado é um sufocante drama sobre o holocausto. Daqueles que te perseguem por algum tempo após os créditos finais.

Parte desse sufoco vem logo de cara, ao perceber que Filho e Saul está no formato 1.37:1, que é mais quadrado que o widescreen e era o usado por Hollywood antes dos anos 50. Nesse caso, a escolha não passa pelo glamour, mas sim pelo modo como o formato comprime a ação ao redor de Saul, que sim, está sempre no foco da câmera. Como se estivesse sempre sufocado e espremido por esse mundo, cercado por esses muros, tanto no campo de concentração, quanto no filme.

Para completar a experiência asfixiante, Nemes coloca seu Saul em uma profundidade de campo tão baixa, que nada ao seu redor parece estar em foco. E isso fica claro logo de cara, no plano inicial, onde a câmera fixa e embaçada espera Saul se aproximar bem perto para encontrar esse foco “colado à tela”. Na verdade, nem tão colado assim, já que a ideia é justamente que o personagem se coloque em meio a esse mundo desfocado, onde os corpos empilhados fogem dos olhos, onde nem o prisioneiro executado, arrastado pelo próprio Saul, não tem forma a não ser de um borrão. Como se Saul precisasse disso para manter-se firme em sua tentativa quase insana de permanecer vivo.

Saul só vê seu mundo tomar forma enquanto passa por essa jornada para enterrar “seu filho”, mas ainda assim parece anestesiado pelo horrores que o cercavam. Nesse momento, Saul se perde em meio a uma pilha de cadáveres e chega bem perto de sua morte sem nem por um segundo pestanejar. Como se o mundo, mesmo agora em foco, não mais fizesse diferença para ele. Como se sua vida não valesse mais a pena.

Um terceiro detalhe técnico que cria um filme ainda mais marcante são seus planos longos. Saul anda pelo campo de concentração enquanto Nemes o acompanha com sua câmera sem cortes, o que obriga a existência de cenários enormes e ligados, já que em certos momentos é fácil sair dos fornos e ir até a um outro lugar, ou como no final, até um rio. Resumindo, Filho de Saul cria um mundo inteiro e coloca o espectador dentro dele.

Filho de Saul então é um daqueles momentos onde um diretor consegue colocar a técnica à serviço da narrativa, um filme onde a sensibilidade da trama ganha ares épicos diante de seu formato. E se alguém achar ainda que Filho de Saul levou o Premio da Academia por ter a “fórmula do Oscar”, pode estar perdendo um belíssimo exemplar de um cinema total, que usa tudo que tem em mão para contar uma história.

Críticas sobre esses e outros filmes você pode encontrar no CinemAqui 

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