Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Fim e recomeço

14 de dezembro de 2015 - 08:34

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Numa época em que o terror é banal, em que não nos indignamos mais, e que poderia ser roteiro de um filme de ficção que assustava aos mais imaturos, emoções meio anestesiadas não nos deixam nem nos surpreender.

Então é Natal quando se comemora o nascimento de Cristo e porque não o nosso nascimento para as coisas novas que a vida nos oferece, renascimento para as ilusões perdidas falar disso e falar de vida, movimento e ações. Época de crianças alegres e excitadas cercadas por adultos melancólicos.
Emoções bastante complexas, que evocam infância perdida, sonhos não realizados, dificuldades não ultrapassadas.

O Natal também é época que propicia reencontros, lavar a sujeira acumulada, reparar o reboco da alma, fazendo com que o verdadeiro Natal faça sentido. A reunião familiar dá trabalho, despesa, mas é importante que ocorra, pois para árvore se manter ereta e forte tem que ter suas raízes alimentadas, irrigadas, boas ou ruins, completa ou incompleta e a família é nossa raiz.

Essa overdose de emoções, na sua maioria inconsciente, passa batida pois a azáfama de preparativos, compras e presentes encobrem um pouco as emoções, a possibilidade dessa revisão da infância perdida de cada um de nós. Infância que ao ser revisitada nos renova e nos traz leveza e oxigena a alma.

Ano Novo, comemoração, que, queiramos ou não, nos leva a fazer um balanço que nem sempre nos enche de alegria e conforto,pois a vida real é assim sem perfeição. E aí que está o segredo: saber fazer do imperfeito o que nos enriquece, e para isso precisamos de uma ferramenta muito pouco utilizada que é a esperança.

Esperança que através dos tempos foi sendo retirada da vida da gente, ficando equivocadamente ligada apenas à fantasia e religião. Mas a esperança é concreta, ela tem cheiro, cor, e resultados, basta que nós a coloquemos em prática. Pois, apesar de tudo, continuamos amando e este apesar de tudo cobre o infinito como diz o filósofo Cioran. Apesar de descobrirmos que nada se mantém estável para sempre nós continuamos.

Apesar de todos os livros escritos, todas as filosofias e todas as análises terapêuticas nós continuamos amando e esperando e esperançando. É muito comum que as pessoas ao invés de curtirem a vida em todas as suas nuances se alienam do espetáculo da sua própria estória, influenciadas por muitas questões totalmente estranhas a si mesmas.

Vale treinar um olhar para dentro, ficar menos encantados com aquisições materiais e externas e nos habituarmos com a alegria e o gozo, perdendo o medo de vivenciar o acerto e o erro. O erro também sendo incorporado não como perda ou dor, mas como mais um passo no processo maravilhoso da vida, que é o de aprender a viver.

Apesar da falta de grana, da situação política, e do cansaço no final do dia estamos vivos para ver e continuar. Continuar, na prática, é não deixar de catar as frutas doces e saborosas que estão na árvore da vida sem chorar pelas que estão caindo pelo caminho, sem se importar com as frutas que não amadureceram, que apodreceram ou as que o passarinho bicou.

Apesar de todas as dores, de todos os desafios que temos pela frente, encarar tudo com a alma aberta e um sorriso estampado no rosto com lembranças leves e coloridas emoldurando o quadro do passado é um grande orgulho de nós mesmos por ter conseguido enfrentar os obstáculos confiante de que poderíamos ultrapassá-los.

Quando nos acostumamos com as coisas boas, muitas ou poucas, e nos vemos merecedores delas, podemos usufrui-las mais e vamos querer sempre mais, apesar de todo o resto.
Portanto, vamos desejar… Este é o primeiro passo para realizar!

Feliz Natal e ótimo Novo Ano!