Ponto de vista
Gastone merece mais que politicagem
Aldo Andrade Silva Neto
O Projeto de Lei nº 1.325/2025, apresentado na Assembleia Legislativa de São Paulo pelo Deputado Estadual Barros Munhoz, pretende dar ao Museu de Pesca, em Santos, o nome de “Deputado Gastone Righi”.
A proposta, embora revestida de aparente reverência, é inadequada em sua essência, pobre em simbolismo e injusta com a dimensão histórica do homenageado.
Não se discute a grandeza de Gastone Righi. Discute-se, isto sim, a pobreza da homenagem.
O Museu de Pesca, instalado no local do antigo Forte Augusto, traz entre suas marcas mais conhecidas a monumental ossada de uma baleia-fin de 23 metros.
E foi justamente Gastone quem entrou para a história nacional como autor da lei que proibiu a caça e o molestamento de baleias, botos e golfinhos no Brasil.
Há, portanto, um descompasso evidente entre a trajetória do homem e o espaço que agora querem usar como palco de um tributo apressado e eleitoreiro.
A inadequação não é apenas ambiental ou conceitual. É também histórica e moral. Dar o nome de Gastone Righi a um equipamento instalado sobre a memória de um forte não condiz com a biografia de um opositor da ditadura, de um parlamentar cassado pelo regime e de um homem que conheceu a prisão política.
A vida pública de Gastone foi marcada pelo enfrentamento ao autoritarismo, não por qualquer associação simbólica com estruturas que evocam tutela, força e arbítrio.
Como se não bastasse, o Museu de Pesca está fechado desde 2022, acumulando adiamentos e frustrações.
A tentativa de transformar um patrimônio interditado em palanque de homenagem só reforça a impressão de improviso.
Antes de rebatizar o museu, o poder público deveria ter a dignidade de reabri-lo, restaurá-lo e devolvê-lo à população santista.
Gastone Righi merece mais. Merece uma homenagem que dialogue com a coragem com que enfrentou a ditadura, com a grandeza de sua atuação parlamentar, com sua defesa histórica do trabalhismo e com o papel que exerceu na vida pública santista e brasileira.
Aliás, o que o honrado Deputado Barros Munhoz fez para reabrir o museu?
Gastone Righi nasceu em Santos, em 21 de dezembro de 1935, e morreu em 17 de abril de 2019.
Advogado, ex-deputado federal e presidente nacional do PTB, formou-se na tradição trabalhista de Getúlio Vargas e teve atuação decisiva em pautas que ultrapassam em muito essa homenagem mal concebida.
Seu nome está ligado à defesa dos trabalhadores, à autonomia política de Santos e Cubatão, à interiorização da Justiça e à proteção dos cetáceos, contribuição que ajudou o Brasil e o mundo a deixar para trás a barbárie da caça às baleias e abriu caminho para a recuperação de espécies como a jubarte, que saiu da lista de animais em extinção.
Há mais. Gastone também ajudou a moldar a comunicação regional. Foi seu trabalho parlamentar que trouxe as concessões da TV Tribuna e da TV Mar para Santos no começo dos anos 90.
Seu legado, portanto, não é apenas político: é também institucional, democrático e comunicacional.
Por isso, Gastone Righi merece mais. Merece uma homenagem que dialogue com a coragem com que enfrentou a ditadura, com a grandeza de sua atuação parlamentar, com sua defesa histórica do trabalhismo e com o papel que exerceu na vida pública santista e brasileira.
E principalmente, como defensor mundial da vida animal quando ninguém falava disso. O nome de Gastone não pode servir de ornamento para uma iniciativa frágil, contraditória e pequena.
Gastone merece mais que politicagem. Merece saber que o jovem santista Vitor Young, contramestre de um barco, está preso ao impedir a ação de mais um navio baleeiro na Finlândia.
Gastone vive nessas ações e com certeza, advogado que era e profundo conhecedor do Direito Marítimo e Internacional, estaria atuando pela liberdade deste jovem juridicamente e politicamente.
Deputado Barros Munhoz vamos ajudar Victor?
Tenho certeza que é uma homenagem que Gastone aprovaria!