Ponto de vista
Gênios
Gênios são sujeitos
incompreendidos. O reconhecimento, por ironia, aparece muitas vezes depois da
morte. Gênios, ainda que obtenham os louros em vida, costumam ser vistos como
estranhos, nem sempre como especiais.
Em Santos, cidade onde moro, existem seres desta
natureza, escondidos nos gabinetes públicos. Atuam no planejamento urbano,
distribuídos entre obras e trânsito. A genialidade deles talvez resida na
capacidade de contrariar ou ignorar números e expectativas. Talvez resida na
habilidade de enxergar de forma única tendências. De fato, o tempo deles
corre diferente. A alteração do espaço urbano dá a eles uma leitura diferente
da minha, um cidadão anônimo, de razoável inteligência.
Nesta semana, duas obras andaram ao mesmo tempo, com diferença
de 800 metros entre elas. Eu, como sujeito mortal e comum, não compreendi o
porquê desta sinfonia, possivelmente à frente do meu tempo. O trânsito piorou,
com focos de congestionamento a ponto de parar na hora do rush.
A primeira obra fica na avenida Epitácio Pessoa, com o
canal 6. O trânsito foi interrompido no local, para a pavimentação de uma nova
ponte. A obra deveria ter sido entregue em outubro do ano passado. Os gênios
devem ter pensado: O que são quatro meses para uma obra de arte que mudará
os rumos da cidade? Realmente, os rumos se tornaram mais lentos e longos.
Conclui que pontes são a nova tendência artística. Novos
contornos ou quem sabe? novas formas de expressão via instalações urbanas.
No canal 5, a ponte da rua Conselheiro Ribas, logo após o Sesc, veio abaixo,
enquanto tapumes de madeira escondem a obra-prima.
O trânsito foi deslocado por falta de opção para
pequenas ruas próximas. No final da tarde, a procissão paralisa, fortalecida
pela saída de alunos em cinco escolas no Canal 5. Como supervisão do cortejo,
um agente da CET. Senti-me incompetente por não entender que só um agente daria
conta de toda a bagunça. Desculpe, bagunça para mim.
Santos
sofreu, nos últimos dez anos, mudanças substanciais, não apenas pela
especulação imobiliária, mas também por fatores externos à cidade, como a
estabilidade econômica, com excesso de crédito e abundância de consumo. Um dos
efeitos diretos é o milagre da multiplicação dos carros em até 60 prestações.
A malha viária do município, todos sabemos, não tem para
onde crescer. Ainda assim, vivemos a farra dos automóveis, que nos coloca entre
as três cidades brasileiras com maior número de veículos por habitante, em
termos proporcionais. É possível notar, em vários locais e momentos do dia,
minicongestionamentos e, portanto, maior tempo de deslocamento.
Ambientalistas e
especialistas em planejamento urbano ficaram obsoletos ou viraram pessimistas
com este cenário. Alertar que o maior problema ambiental é a densidade de
população soa como delírio conspiratório. As diferenças de temperatura entre
bairros, por conta disso mais a construção de prédios sem planejamento, devem
ser fraudes de termômetros a serviço de quem não vê além do horizonte.
Somando com outros casos de obras entregues além do
prazo, quando não incompletas em relação ao projeto original, preferi confiar
na sabedoria popular. Ela sanou minhas dúvidas em uma frase: gênios costumam
ser caóticos nas suas criações.