Geração Z: entre o desencanto e a busca por sentido | Boqnews

Ponto de vista

12 de novembro de 2025

Geração Z: entre o desencanto e a busca por sentido

Desemprego, afastamento da política, frustração, desilusão e descrédito nas instituições são traços que atravessam a juventude em todos os continentes.

A geração Z, nascida entre 1997 e o início de 2010, está impulsionando mudanças disruptivas em diversas áreas.

É a primeira a viver inteiramente na era digital — hiper conectada, globalizada e, paradoxalmente, profundamente insegura quanto ao futuro.

Enquanto seus pais acreditavam na ascensão social e na estabilidade profissional, os jovens de hoje enfrentam um horizonte de incertezas.

Estudam mais, ganham menos e vivem num mercado corroído pela automação e pela informalidade.

São avessos a burocracias e hierarquias verticais rígidas. Buscam ambientes de trabalho mais abertos e transparentes, onde possam expressar suas opiniões e serem valorizados como indivíduos completos.

Demonstram coragem e ousadia em suas escolhas, não se limitando a modelos preestabelecidos.

São menos consumistas do que as gerações anteriores, preferindo marcas que estejam alinhadas com seus valores pessoais.

São mais abertos e vulneráveis sobre questões de saúde mental, esperando que empregadores e a sociedade em geral abordem esses desafios de forma proativa.

A economia global, que prometia integração, trouxe precariedade. Daí nasce o desencanto estrutural: a sensação de caminhar sem chão. O fenômeno é planetário.

No Quênia, multidões de jovens tomam as ruas de Nairóbi contra o aumento de impostos e a corrupção.

No Marrocos, estudantes marcham denunciando o contraste entre os investimentos bilionários em estádios para a Copa do Mundo e o abandono da saúde e da educação.

Em Madagascar, protestos contra apagões e desemprego terminam em confrontos violentos.

No Nepal, jovens reagem à censura digital (que levou a protestos que ganharam impulso com denúncias de corrupção) e à falta de oportunidades; no Togo, enfrentam reformas constitucionais que perpetuam elites no poder.

Na Europa, a inquietação também cresce. Na Sérvia, estudantes transformam uma tragédia local — o desabamento de uma estação de trem — em catalisador de um amplo movimento cívico contra o autoritarismo e a corrupção.

Na França, o movimento juvenil “Bloquons tout” (Bloqueemos tudo) expressa a exaustão de uma geração diante da austeridade econômica e da perda de horizontes.

A juventude europeia, mais instruída e mais conectada, já não acredita que a política seja o caminho para mudar o mundo.

Na América Latina, a onda de descontentamento segue o mesmo ritmo.

No Peru, jovens desafiam o estado de emergência para exigir reformas políticas e previdenciárias, se mobilizam e levam à destituição da presidente Dina Boluarte, simbolizando o colapso da confiança nas instituições.

No Chile, as manifestações estudantis dos últimos anos seguem vivas em movimentos que pedem um novo pacto social.

Mesmo nos Estados Unidos, onde o voto jovem foi decisivo em eleições recentes, cresce a frustração com o bipartidarismo e a lentidão das transformações.

Sofia Ong’ele, diretora de estratégia da organização americana Gen Z for change, em depoimento ao jornalista Gabriel Barnabé (“Geração Z usa redes sociais para ir às ruas e derruba governos pelo mundo” (FSP/3/11/2025), constata: “nunca houve tantos movimentos sem liderança acontecendo ao mesmo tempo. Isso é novo e estamos aprendendo em tempo real o que vem depois”.

O fato é que a política, para essa geração, perdeu o poder de sedução.

Cresceram vendo escândalos, promessas quebradas e líderes que falam uma língua morta.

O ceticismo virou instinto de sobrevivência. A descrença, forma de autodefesa. Ainda assim, não são apáticos: protestam, mas de outro modo.

A rebeldia se manifesta nas redes. O protesto é feito de hashtags, boicotes, ironias e vídeos de poucos segundos.

É uma política de causas, não de partidos; de valores, não de ideologias. Lutam por meio ambiente, diversidade, equidade e ética digital.

A emoção substitui o discurso. Significa que, na era das redes sociais e da cultura digital, a aprovação e a rejeição sociais assumiram novas formas de expressão e impacto, desvinculando-se, em parte, de suas origens práticas para se tornarem instrumentos de validação e julgamento moral em massa.

O paradoxo é evidente: essa geração, moldada pela tecnologia, começa a rebelar-se contra ela.

Desativa notificações, denuncia manipulações, abandona redes. É um protesto contra o próprio sistema que os formou — um grito por autonomia e silêncio num mundo saturado de ruído.

O desencanto político tem, contudo, um lado positivo. Ao rejeitar as velhas formas de poder, a geração Z abre caminho para novas experiências de cidadania.

Surgem coletivos locais, startups sociais e comunidades digitais que testam modos de convivência mais éticos e colaborativos.

O engajamento migra do palanque para o cotidiano, da ideologia para a prática.

O desafio das democracias sugere reconectar-se a esses jovens.

Governos e instituições precisam falar a língua da transparência, da verdade e da coerência.

Caso contrário, continuarão perdendo o que mais importa: a confiança.

Trata-se de uma geração que quer justiça, sentido e coerência. Por trás das telas, pulsa a energia de quem não quer apenas consumir o mundo, mas reinventá-lo.

O futuro político dependerá de transformar esse descontentamento em força criadora — e de ouvir, com humildade, o que o silêncio dos jovens anda dizendo nas ruas de Katmandu, Casablanca, Lima, Santiago e até em Nova Iorque, onde a futura primeira-dama, Rama Duwaji, de 28 anos, esposa do recém eleito prefeito, Zohran Mamdani, é pertencente à geração Z.

A geração é o paradigma de um novo tempo, por estar redefinindo as normas sociais, os valores e o mercado de trabalho.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

Gaudêncio Torquato
Gaudêncio Torquato
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.