Ponto de vista
Hitchcock

Fazer da vida do cineasta Alfred Hitchcock – no período onde
suas relações profissionais com Hollywood e sua situação econômica estavam
engatilhadas, prontas para um tiro no escuro – uma verdadeira trama de intrigas
envolvendo: um ciúme doentio por sua talentosa esposa, Alma Neville, alcoolismo
e uma compulsão crônica pelas musas que eternizaram as personagens de seus
filmes, é algo muito bom de assistir. Talvez, o fato de nunca antes termos tido
a oportunidade de ver sua vida particular, cinematograficamente, sendo exibida
ao público, tenha colaborado positivamente para sentirmos essa sensação. Neste
filme, o mestre do suspense está vulnerável. Somos testemunhas de suas
emoções e, juntos, fantasiamos a elaboração de cenas cruciais do filme que mais
trouxe prestígio ao diretor, injustiçado durante anos por críticos e pela mais
famosa cerimônia de prêmios do cinema: o Oscar.
Assistir ao filme “Psicose” é algo único. Tanto,
que se eu pudesse apagar minha memória, eu faria por prazer. Só para ter a
mesma sensação de estar assistindo pela primeira vez. E olha que não faz muito
tempo! O clima do longa de 1 hora e 48 minutos faz jus aos méritos do diretor,
que depois de muito tempo produzindo diversas produções, de forma independente,
foi importado por Hollywood para dar continuidade a sua genialidade. É claro,
com todo o suporte técnico que cidade do Cinema pode oferecer.
Agora, o bastidor deste clássico suspense, que quebrou os
padrões de censura dos filmes americanos, está disponível através do comando do
diretor Sacha Gervasi, que buscou produzir um filme onde temos a vida de
Hitchcock paralela a uma investigação conjugal e inserida numa turbulência que
abalou o mercado cinematográfico nos anos 60.
Em uma cinebiografia, creio que a aparência como os
personagens são apresentados ao público deve atender a uma necessidade básica:
lembrar o artista que esteja representando. Não que seja uma regra, mas
acredito que isso faz com que o público faça uma melhor associação à personalidade
em pauta. No caso de Hitchcock, de longe, e sem exagero, Anthony Hopkins nada
se parece com o gordo bochechudo que podemos ver invadindo alguns de seus
filmes isso é para quem acha novidade Stan Lee, Tarantino ou Scorsese fazer
pontas em seus próprios filmes. Porém, a dicção empregada nas falas, pelo ator,
estão perfeitas. A fala mansa e pausada de Hitchcock está perfeitamente
reproduza no filme. Com isso, a lacuna negativa que a maquiagem produziu, foi
preenchida pelo talento de Hopkins. E outra, trocar o ator para atingir tal
nível de similaridade seria um risco muito maior. A atriz Helen Mirren está
formidável como Alma Neville. Concisa e, ao mesmo tempo, rígida, impondo
respeito, faz uma ótima atuação. Através de seus gestos conseguimos identificar
o sentimento que poderia estar sentindo uma estrela que sempre era ofuscada
pelo brilho de outra: o brilho da fama do seu marido.
É incrível a semelhança entre James DArcy, que interpreta o
psicopata de Norman Bates, com o ator que interpreta o mesmo personagem,
Anthony Perkins. Uma verossimilhança positiva ao filme. Scarlett Johansson vive
Marion Crane, a polêmica protagonista que morre no meio do filme e que tanto
desiludiu os produtores do cineasta. Johansson pode ter sido uma ótima escolha
para o papel. Ela se encaixa perfeitamente em um padrão que despertava arrepios
no diretor: bela, jovem e loira. Um dos problemas que resultou em crises no
casamento entre ele e Alma, sua parceira. E que, mesmo assim, nunca o
abandonou.
Com um ritmo calmo e envolvente, a narrativa nos conduz
através do sacrifício feito por todos os envolvidos para terminar as filmagens
de Psicose, que, em certo momento, já estava atrasado e estava com o orçamento
estourado. Sacrifício porque, para quem não sabe, o filme teve que ser produzido
de forma independente. Já que a produtora não se comprometeria com um filme que
fugisse de uma linguagem assinada pelo diretor durante muito tempo. Poderia ter
sido um tiro no pé. E o problema com a censura era onde mais pesava porque, para
a sua livre exibição, o filme, não poderia conter cenas explícitas de nudez,
violência e… do close de um vaso sanitário. Isto mesmo, um vaso sanitário
imagina querer fazer um filme como Shame naquela época. Em uma das cenas,
Hitchcock negocia de forma eficaz todas essas barreiras, explicando que nada
iria ser explícito. E que, o vaso sanitário faria parte crucial da trama.
Chegar ao final do filme e ver a reação do público ao ouvir a
aterrorizante trilha sonora, produzida exclusivamente para a cena do banheiro
por Bernard Herrmann, é muito nostálgico. O filme se resume numa verdadeira
orquestra, onde todos os instrumentos estão sincronizados e prontos para dar o
seu show musical. E claro, com a regência de um dos melhores maestros que o
Cinema já teve.
Ficha Técnica
Hitchcock, 2012
Diretor: Sacha Gervasi
Roteiro: John
J. McLaughlin
Elenco: Anthony
Hopkins; Helen Mirren; Scarlett Johansson;
Danny Huston;
Toni Collete; Jessica Biel; James DArcy;