A curva de custo da proteção às blusinhas  | Boqnews

Ponto de vista

2 de julho de 2026

A curva de custo da proteção às blusinhas 

Marcos Cintra 

A discussão em torno da “taxa das blusinhas” expõe um dilema estrutural da política econômica brasileira: a incapacidade de tratar proteção industrial como instrumento transitório de desenvolvimento e a tendência de convertê-la em mecanismo permanente de transferência de renda.

A oscilação recente — criar a taxa, rever a taxa, admitir a possibilidade de restaurá-la — revela que o debate não está ancorado em estratégia industrial consistente, mas em cálculo político de curto prazo.

Esse é o ponto fundamental para compreender por que o país repete ciclos de proteção que não geram produtividade e, ao final, penalizam indefinidamente o consumidor. 

A proteção só é justificável quando funciona como investimento. O consumidor arca com um custo inicial para que a indústria tenha tempo de consolidar escala, tecnologia e aprendizado.

A lógica econômica clássica exige que esse custo caia ao longo do tempo, à medida que a produtividade aumenta.

O teste definitivo é simples: setores que recebem proteção devem, após alguns anos — cinco é um horizonte razoável — tornar‑se capazes de competir fora do mercado doméstico.

Exportar não é um capricho; é o indicador objetivo de eficiência global. Se a indústria protegida não consegue isso, não internalizou o ganho de produtividade que justificaria a proteção.

A experiência brasileira raramente segue essa trajetória. A proteção nasce sem condicionantes, não fixa metas, não estabelece cronograma obrigatório de revisão e não vincula sua continuidade a indicadores mensuráveis de desempenho.

Quando o prazo implícito se esgota, o setor alega insuficiências estruturais e demanda prorrogação. O Estado concede. A indústria se acomoda.

O consumidor continua pagando mais. E o ciclo se perpetua.

A proteção, que deveria ser transição, transforma-se em arranjo permanente — exatamente o contrário do que ocorre em países que usaram o protecionismo como ferramenta de desenvolvimento, e não como mecanismo de acomodação política. 

O episódio da taxa das blusinhas reforça essa dinâmica. O governo onerou, depois desonerou e agora admite a possibilidade de reonerar novamente.

Não houve mudança de estratégia industrial; houve recalibragem da conveniência política. Inicialmente, a oneração buscou sinalizar apoio à indústria e aos empregos associados a ela, ainda que tudo indique ter sido uma desesperada tentativa de aumento de arrecadação.

A discussão sobre as blusinhas é apenas um sintoma de algo mais profundo: um Estado que protege, mas não cobra resultados; que tributa, mas não planeja; que reage ao ruído político, mas não constrói trajetória de competitividade.

Quando a reação popular se mostrou intensa, principalmente entre consumidores de baixa renda sensíveis ao preço, o governo recuou.

Agora, ao cogitar reinstalar a cobrança, reconhece que o benefício político da isenção pode não compensar o custo de enfrentar setores organizados do varejo e da indústria que pressionam pela volta da taxação.

O eixo da decisão não é econômico; é eleitoral. 

O problema é que esse movimento destrói a racionalidade da política industrial. Sem horizonte claro, sem metas e sem previsibilidade, nenhum dos atores — consumidores, produtores, investidores — sabe qual será o custo efetivo da política daqui a seis meses.

Isso inviabiliza planejamento e insere incerteza regulatória em um setor já marcado por disputas intensas. As idas e vindas produzem ruído e impedem que a proteção, quando necessária, seja estruturada como etapa de transição. 

O país precisa decidir qual é o objetivo da proteção. Se é fomentar competitividade, o caminho é proteção temporária com exigências explícitas: aumento de produtividade, redução de custos e capacidade exportadora em prazo definido. Se não entregar, a proteção deve ser retirada.

Se, ao contrário, o objetivo é administrar conflitos distributivos e responder às pressões de grupos organizados, então é preciso admitir que a escolha política consiste em penalizar o consumidor para preservar estruturas produtivas pouco eficientes. Mas isso deve ser dito com transparência — e não mascarado como estratégia de desenvolvimento. 

A curva de custo da proteção deveria ser descendente; no Brasil, tornase plana.

E quando a proteção perde sua característica transitória, o país perde a chance de transformar consumo imediato em capacidade produtiva futura.

A discussão sobre as blusinhas é apenas um sintoma de algo mais profundo: um Estado que protege, mas não cobra resultados; que tributa, mas não planeja; que reage ao ruído político, mas não constrói trajetória de competitividade.

O custo disso, ao final, sempre recai sobre quem não tem lobby: o consumidor. 

Marcos Cintra 
Marcos Cintra , Doutor em Economia por Harvard, Marcos Cintra é atualmente professor titular da Fundação Getúlio Vargas e conselheiro do Instituto Atlântico. 
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.