Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Jogando no Itapema

Aos 13 anos de idade, todo geek/nerd não tem nada além de zoações e risadas em suas costas. Uma janela aberta e o PlayStation ligado mudaram essa minha percepção de vida.

01 de agosto de 2017 - 09:51

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Tinha 13 anos de idade quando meus pais se separaram. Fui com minha mãe e meu irmão morarmos com um tio. Tirando as porcaria de conviver em conjunto, tinha um lado bom: meu tio tinha um PlayStation. Em 2003 era o que virava a cabeça da galera. Ter um videogame em casa te tornava parte dos grupos, integrava às conversas e muito mais na escola. Tentando amenizar os acontecimentos, eu e meu irmão ganhamos alguns games e entre eles estava Yu-Gi-Oh! Forbidden Memories. O desenho era outra coisa que virava a cabeça da criançada e o game era ainda mais imersivo. E eu jogava desenfreadamente. Fazia escapar dos pensamentos ruins, sabe? Como a casa do meu tio era conjunta, não era raro ver pessoas passando pelo quintal e, no segundo dia morando ali, me deparei com um garoto loiro olhando pela janela do meu game. Dei um aceno e ouvi ele dizer “Então você gosta de Yu-Gi-Oh?”. E esse foi o início de algo maior do que poderíamos imaginar.

“É hora do duelo”. Com essa frase, começava cada confronto no jogo Yu-Gi-Oh! (seja no TCG ou nos videogames)

 Assim que confirmei a informação a seriedade se foi, deu lugar a uma risada, dicas do game e descobri que além dele, tinha outra criança da vizinhança que também jogava. Para alguém que aprendeu a viver isolado, sem muitos amigos por ser o “estranho” dos games/HQs/animês, aquilo talvez fosse a redenção. E foi. Eu, Lucas (a criança loira) e Felipe (o outro vizinho) tínhamos mais em comum do que imaginávamos. Crescemos em base dos mesmos desenhos animados, ouvíamos as mesmas músicas, jogávamos os mesmos jogos, colecionávamos as mesmas febres do momento…era a “fuga” da vida real que eu estava buscando.

Nossa amizade era forte no videogame. Mais do que em qualquer outro meio. Jogávamos de tudo juntos, íamos com aqueles porta-CDs embaixo do braço para a casa um do outro e passávamos tardes, noites e finais de semana na frente da TV com o controle em mãos. Não tinham “preferidos”, mas alguns marcavam. Digimon World 3, os três jogavam. Ainda lembro que cada um tinha um monstro “principal”, que era a nossa marca registrada durante o game. Até mesmo travamos na mesma parte e sabe o que isso significa sem a internet, Youtube e afins certo? Semanas na tentativa de esclarecer o problema. E quando o primo do Felipe nos revelou a artimanha para passar do deserto e chegar na Torre da Miragem, não demorou muito para seguirmos ao final.

 Assim que adentrava no segundo continente em Digimon World 3, um deserto mantinha um mistério escondido através de suas miragens…

Nossas demais aventuras foram inúmeras. Desde o jogo Medarot R que era totalmente em japonês e quebrávamos a cabeça (lembra do Medabots? TV Globinho?) para chegarmos ao fim, até Beyblade (cujas peças eram mudadas constantemente para o amigo não vencer na mesma estratégia) e Castlevania: Symphony of the Night (uma tormenta conseguir 200% do castelo) o trio sempre experimentava os mesmos games. Parecia que nossa mente atuava em sincronia. Perdemos a conta de quantas vezes sentamos no sofá para jogar e dar opinião um no game do outro.

O que tínhamos de igual, também tínhamos de diferente. Felipe era o clássico “esportista”, era na mão dele que conheci Tony Hawk’s Pro Skater 2 e o Winning Eleven (e os clássicos campeonatos que rolavam em sua casa, que me deram uma noção básica de futebol para não passar vergonha). Já o Lucas era o mais novo entre nós, ele apesar de ser mais “atrasado”, me apresentou clássicos como Megaman X4 (e o X5, X6…), era tão fã de Pokémon quanto eu e posteriormente Kingdom Hearts. Nessa leva vi vários games que não familiarizei (Hoshigami, RPG estratégico, Power Rangers Time Force, esquecível…entre outros).

A saga Megaman X no PlayStation trazia chefes desafiadores e uma história mais próxima do público juvenil.

Isso não quer dizer que eu era uma casca vazia, caro leitor. Eu era o responsável pela descoberta de games como Chrono Cross, Legend of Legaia, Megaman Legends 2, Digimon Rumble Arena e Digimon World 2, Alundra 2 entre outros. Fazia o máximo de esforço para economizar dinheiro e gastar nos camelôs no final de semana para descobrir novos universos, novas aventuras e ver o que poderíamos jogar juntos. Nessas que soubemos da existência de games como Bloody Roar (jogo de luta onde os lutadores eram transmorfos animais) e até Legend of Mana (um dos melhores RPGs que tive o prazer de ver no PlayStation).

Tirando essa onda de referências boas do passado, também passamos por muitas coisas durante a amizade. Foi através do GameBoy do Lucas que pude jogar, pela primeira vez na vida, um game do Pokémon. Eram nessas tardes chuvosas que nos reuníamos num lugar para sacar os decks de duelo e ver quem era o verdadeiro duelista do “milênio”. Foi nessas aventuras nossas que surgiu nosso primeiro RPG de mesa, baseado em Pokémon (qual lembro com muito carinho até os dias atuais). Víamos vários desenhos juntos. Foi com eles que me arrisquei a jogar futebol na rua com as demais crianças do bairro. Íamos e voltávamos da escola juntos.

E, para quem me conhece, foi ao lado deles que despertei parte da maldade que me acompanha. Era expert em pregar peças. Quem mais você conhece que pegava um Eevee no nível 5, tirava todos Pokémon da equipe e entrava na Liga Pokémon, salvando o jogo do amigo? A dublagem bizarra dos games começou com eles também, com um game do Naruto em japonês para o PlayStation 2. Ríamos até chorar daqueles personagens que inventávamos coisas idiotas. Ou até mesmo da apelação em Digimon Rumble Arena onde eu e meu BkWarGreymon fomos imbatíveis enquanto o game durou. E eu gostava de lembrá-los sempre desse fato. A parte chata da vida chega à todos, afasta as pessoas e traça caminhos separados a todos. Mas o que fica não é o mais importante?

 

Deixar um Eevee no lv.5, sozinho na equipe dentro da Liga Pokémon é maldade para você? 

Para não deixar vocês no “limbo” do que aconteceu, lhes respondo que foi a vida. Ela acontece e nos leva onde temos de ir. Independente do quanto gostemos de onde estamos. O Felipe era jogador profissional e foi levado ao esporte até Portugal, lugar qual passou alguns anos antes de retornar e se voltar à igreja e seus estudos. Neste tempo eu e Lucas prosseguimos a amizade, mas eu acabei entrando em relacionamentos destrutivos (algumas amizades e romances) e isso abriu uma distância entre nós também. Sem adentrar em mais detalhes, apesar do caminho ser diferente, sempre que pego num videogame e olho para trás, gostaria de ter amizades como fomos hoje em dia. Faz uma falta gigantesca.

Apesar de eu já ter uma amizade à distância, eles foram meus melhores amigos por anos que dividimos nossos crescimentos, ideias, gostos, jogos e quais eu pude aprender o quanto um momento, um simples instante, pode mudar nossas vidas para sempre. E o nosso foi o dia que deixei a janela aberta enquanto jogava meu game de cards. Podem falar o que for sobre ele, mas sou grato até hoje por existir e ter me proporcionado os melhores momentos que tive nessa fase da vida. E foi isso que me fez botar tanta fé nesse mercado qual me encontro hoje. Cada vez que pego o controle, eles estão comigo. Parte de nossas memórias, aventuras e dicas percorrem minha mente. E posso estar no jogo, mas não estou só. Apenas sigo as aventuras e as memórias e isso é o suficiente.

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