Kratos | Boqnews

Ponto de vista

3 de maio de 2018

Kratos

Há duas semanas já estamos (ou não) jogando o novo God of War e este lançamento já está sendo aclamado como um dos maiores jogos de PlayStation 4 já feitos. Porém, não apenas a evolução gráfica, visual e a inovação de jogabilidade que fazem deste game um dos marcos da nova geração. As mudanças que vemos em Kratos da trilogia original até chegar nas terras nórdicas são, de fato, a verdadeira diferença que a franquia precisava. Você conhece o novo “deus da guerra”?

Kratos está mais velho, mais “cansado” e arrependido do que fez.

Para quem não conhece a franquia, vamos recapitular. Kratos é um espartano que teve sua família exterminada por planos dos deuses gregos. Assim, almeja se vingar deles, começando pelo responsável pela morte de sua esposa e filha: Ares, o deus da guerra. Porém, ele não faz isso de uma forma “bonita”, “bem-executada”. O personagem destrói, dilacera e devasta tudo em seu caminho na maior brutalidade para cumprir seu objetivo. Isso se resume a cabeças arrancadas, sangue, membros destruídos, mais sangue, fraturas tão expostas que quase saltam da tela, muito sangue mesmo…e ele segue durante os três jogos principais apenas tentando se vingar dos deuses.

Por anos ele segue seu caminho nessa violência, até o dia que ele cumpre seus objetivos e extermina todo o panteão grego do planeta. No fim, ele percebe a jornada de caos e devastação que deixou e o quanto perdeu de sua vida nessa trama divina. Eles tomaram “tudo” dele. Não restava absolutamente mais nada, nem mesmo vontade de seguir em frente. E é nesse ponto que o jogo novo entra. No primeiro “impacto”, dá para perceber: Kratos está velho. Não tanto para fazer o que precisa ser feito. Mas não há mais um jovem forte e cheio de ódio. Apenas um rosto conhecido que carrega cicatrizes e pesares pela vida. Arrependimentos. Todo um passado que ele preferia esquecer no olhar.

No passado, Kratos usava as Lâminas do Caos para conquistar sua vingança

Seu filho, Atreus, faz parte dessa mudança. A saga dos dois se resume a levar as cinzas da atual esposa falecida de Kratos para a montanha mais alta dos nove reinos. As diferenças são claras quando vemos a criança imitando os trejeitos que eram marcas registradas do pai, enquanto ele vê a semelhança e tenta aconselhar e “endireitar” o caminho do filho. Atreus é um “espelho” de seu passado, pelo qual consegue enxergar o quanto errou em agir com violência e desprezo pela vida. A tentativa de guia-lo pelo bom caminho chega a ser “irônica”, mostrando tudo que aprendeu com o tempo.

A Santa Monica Studios foi genial pegando algo icônico e redefinindo para um ser mais humano e reflexivo. Não se engane, Kratos não perdeu seu faro para um bom combate e nem se torna piedoso. Quem se deparar com ele ainda sofrerá as conseqüências. Sua fala ainda é dura, seu jeito ainda é frio e ainda há fantasmas do passado que pesam em seu presente. Mas assim como a vida real, o passar do tempo nos ensina e nos cria novamente. Não somos mais quem fomos ontem. A criança lá de 9, 10 anos atrás não é o jovem que está aqui. O mesmo funciona com ele. Mantiveram a raiz, alteraram as motivações.

Atreus se aventura com Kratos e aprende mais sobre o misterioso pai com o avanço da história

Não é o gráfico intenso e os combates que enchem os olhos que o tornarão um dos maiores competidores para Jogo do Ano 2018. Nem o fator de inovação para mudar de hack n’ slash para um jogo misto de RPG e aventura. Mas sim o trabalho que tiveram para mostrar aos jogadores quem é o Kratos de hoje. O que ele se tornou e para onde ele vai assim. Tem games que se preocupam demais em alterar pontos-chave e deixam de lado a história, o que traz ela à vida: seus personagens. Não foi o caso. A maior mudança foi o protagonista e ele não só parece “outro”, mas também mantém suas raízes e carrega tudo que fizemos no decorrer da saga que surgiu no PlayStation 2.

Se você nunca jogou um God of War antes, não se preocupe. Kratos faz de tudo para que o filho não descubra seu passado e tudo que destruiu em seu caminho. Quando isso começa a ser revelado, você revê todos os principais detalhes e não fica perdido na história. Para quem jogou, é um prato cheio das referências e tudo que consegue reparar nos trejeitos do protagonista desde a cena inicial. O novo God of War é inclusivo, simples de compreender e mostra ele numa aventura que jamais imaginou: ser pai e ter “companheiros” em sua jornada.

A ligação entre Kratos e Atreus é a chave para compreender a história contada no jogo lançado em 2018

Podia falar mais sobre o jogo, sobre os deuses nórdicos e as razões que os colocam no caminho de Kratos, sobre Atreus e sua trajetória (surpreendente), sobre as mecânicas, mas nada disso é o ponto principal dele. Conheço pessoas que não gostam do God of War que, sinceramente, amariam ver tudo isso redefinido. Gente cansada de “mais do mesmo”, de pensar “pô, mais um? Não vai parar não?” e ver que ainda há novos truques para franquias do passado. E a razão disso tudo é por mostrar que o tempo passa para todos. Podemos mudar, fazer as coisas diferentes. Seguir em frente, sem deixar de ser quem é. E é esta lição que o jogo passa.

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