Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Leite derramado

Apesar das justas reivindicações, apostar no insucesso da Copa em nada contribuirá para ajudar na solução dos problemas brasileiros

27 de maio de 2014 - 17:08

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A poucos dias para o início da Copa do Mundo, o País vive a expectativa de realizar de forma competente um evento que atrai a atenção de todo o mundo, dado o interesse e alcance que a competição consegue atingir em razão da grande cobertura da mídia internacional. Há muito pretendido e reivindicado por governos brasileiros, o evento promovido pela Fifa sempre foi tido como uma dádiva concedida às nações afortunadas, um instrumento estratégico de projeção no cenário mundial e de estímulo à realização de investimentos de infraestrutura urbana, por isso sempre almejado por diversos países que concorrem e aceitam as condições exigidas para realizá-lo em seus territórios.

Com o Brasil não foi diferente e todos os segmentos, com raras exceções, regozijaram a escolha do País como sede da Copa 2014, a partir do aceite espontâneo e com livre arbítrio das imposições feitas pela Fifa. Havemos de reconhecer que mais do que representar o principal ícone da cultura futebolística, tão pertinente à realidade e à história brasileira contemporânea, a Copa, no curso das últimas quatro décadas, ganhou feições de um grande negócio e, por essa razão, hoje produz dividendos econômicos e sociais. Isso porque, a atividade gera inúmeras oportunidades empresariais e, por consequência, novas e preciosas vagas no mercado de trabalho.

Atualmente, uma ampla cadeia produtiva prospera a partir da principal disputa do futebol mundial, movimentando segmentos de entretenimento, vestuário, turismo, serviços e tantos outros. Há ainda muitos exemplos que denotam outros resultados positivos obtidos pelas atividades relacionadas à Copa, especialmente por também ensejarem um forte estímulo à organização das cidades participantes, com benefícios e contribuições que, se bem conduzidas, se estendem também ao atendimento de áreas assistenciais, de educação e de fomento à cultura. Nesse sentido, apesar das justas reivindicações, questionamentos e críticas coerentes em relação à serventia e ao desperdício de recursos públicos para a realização do evento, diante da imensa demanda social ainda existente no País, apostar no seu insucesso em nada contribuirá para ajudar na solução dos principais problemas brasileiros. Ao contrário, somente atenderá aos interesses dos que apostam no caos e estigmatizará uma ideia exacerbada de incompetência e baixa autoestima.

A Copa pode ajudar na formação e consolidação de uma nova imagem para o País, reunindo conceitos positivos que ressaltem a criatividade, beleza e eficiência do povo brasileiro, desde que sejam precedidos por valores de civilidade agregados a um ambiente de paz. Por isso, cabe a todos o esforço de potencializar, ao máximo, as vantagens desse acontecimento. Uma oportunidade que não merece ser desperdiçada, afinal o leite já está derramado.