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Vinicius Carlos Vieira

Saiu da faculdade de jornalismo e descobriu que não sabia fazer mais nada a não ser escrever sobre cinema. Resolveu virar crítico. Hoje, é editor e crítico do site Cinema Aqui (@cinemaqui), além de ser produtor do Nerd Cine Fest. No twitter pode ser encontrada no @vinicvieira

A Lenda de Tarzan

Personagem clássico ganha mais uma nova roupagem e mais uma vez não apolga. Confira a crítica.

27 de julho de 2016 - 21:29

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bannerNinguém mais liga para o Tarzan. Não que ele não seja um personagem empolgante e interessante, com certeza ele é, mas o problema maior é que sua imagem já foi tão explorado no cinema que fica difícil se empolgar com a possibilidade de um novo filme. E a culpa desse desinteresse vem de exemplos como A Lenda de Tarzan.

Igualmente proporcional ao desinteresse pelo personagem é a falta de vontade com que esse novo filme é pensado e realizado, e mesmo com David Yates na direção (dos últimos quatro filmes do Harry Potter no currículo) o resultado é tão preguiçoso e sonolento que só demonstra o quanto o personagem foi mais uma vez desperdiçado.

Um desperdício que passa primeiramente pelo roteiro escrito por Adam Cozad e Craig Brewer e faz a absoluta questão de não acrescentar nada ao personagem, à sua mitologia e muito menos a uma nova geração que nos últimos 20 anos não viu nada que prestasse muito com o personagem. Seu último grande momento talvez tenha sido nos anos 80 com o interessante A Lenda de Greystock (com Christopher Lambert), desde lá o que se viu foi um trio de animações infantis e uma bomba Tarzan e a Cidade Perdida (que ninguém nem viu e nem lembra).

E falando em “Cidade Perdida”, A Lenda de Tarzan volta justamente à ela, já que a tal Opar é o centro dessa nova trama, onde Christoph Waltz (não cansando de repetir seus vilões) é Leon Rom, braço direito do Imperador da Belgica, que agora é “dona” do Congo. Rom parte então para o meio da floresta para encontrar essa tal Opar e um monte de diamantes para salvar o Império Belga. O problema é que ele acaba cruzando o caminho do líder do misterioso lugar, Mbonga (Djimon Hounsou, que já parou de se importar com sua carreira há muito tempo), que promete toda essa riqueza em troca da oportunidade de se vingar de Tarzan (Alexander Skarsgard), que por sua vez está lá todo diplomático em Londres, vestindo seu terno alinhado, morando em uma baita mansão, atendendo pelo nome de John Clayton III e casado com Jane (Margott Robbie).

Em algum lugar da trama você ainda encontrará Samuel L. Jackson como um enviado do governos dos Estados Unidos (que não devia estar se metendo em nada disso) para convencer Tarzan a voltar para o Congo e levá-lo junto, assim ele poderá investigar um esquema de escravidão que promete dizimar a população do país (tema que logo é deixado de lado). Jackson também está sempre por lá para ser uma espécie de alívio cômico, escutar algumas histórias sobre Tarzan (assim o espectador também as ouve) e citar o nome de cada arma que encontra (ainda que isso não faça muito sentido nem aqui no texto, nem no filme).

a-lenda-de-tarzan-destaqueEnquanto vai de encontro a essa armadilha, o roteiro de Cozad e Brewer encontra tempo de encaixar um punhado de flashbacks para contar aquela mesma história de origem do personagem. Assim como, assim que têm a oportunidade simplesmente jogam no peito do espectador aquela velha e repetitiva história da Jane sequestrada e do Tarzan voltando à suas origens selvagens enquanto se balança pelos cipós e vai em busca de sua amada.

E a inda que a trama faça questão de não empolgar, pelo menos o visual do filme funciona. Não que seja uma maravilha e nem se permita ser muito lembrado depois do acender das luzes, mas ainda assim Yates entrega um filme bonito. Sem o charme de seus trabalhos em Harry Potter, e sem em nenhum momento conseguir emplacar alguma cena mais épica e que marque o espectador, ainda assim, A Lenda de Tarzan é um filme visualmente interessante, com um CGI que mais acerta do que erra (erra toda vez que “gera” o herói), uma direção de arte que recria bem aquele mundo e um diretor que sabe aproveitar muito bem tudo isso em tela.

E isso ainda é reforçado por um elenco que pode não ser uma maravilha, mas funciona. Skarsgard tem o porte e a atitude “blasé” que vem com o personagem, enquanto Robbie é uma Jane esforçada e aproveita bem cada um de seus momentos, ainda mais, pois em grande parte do filme contracena com um Waltz que repete seu “vilão padrão”, mas ainda assim (como sempre) o fazendo funcionar diante de alguns poucos detalhes e nuances.

Mas tudo isso é logo esquecido, já que não tem nada de novo e muito menos vai em busca de alguma faceta do Rei das Selvas que ainda não tenha sido mostrada (como fez A Lenda de Greystock). A Lenda de Tarzan vai então ser colocado nessa enorme prateleira de adaptações da obra de Edgar Rice Burroughs ao lado de Casper Van Dine (Tarzan e A Cidade Proibida), dos desenhos e de mais um punhado (na verdades “alguns punhados”) de momentos em que esse grande personagem foi desperdiçado pelo cinema.

Críticas desse e de outros filmes você pode encontrar no CinemAqui