Ponto de vista
Uma nova ameaça à liberdade imprensa
Marcelo Rech
Em todo o mundo e em qualquer período da história, fazer jornalismo tem muito de missão, uma espécie de sacerdócio movido pela convicção de que informação livre e confiável tem o poder de transformar positivamente a sociedade, ou ao menos desacelerar os processos de degradação civilizatória.
Na América Latina, desde sempre foi preciso muita perseverança, e até pitadas de heroísmo, para enfrentar ameaças e intimidações.
Agora, é preciso agregar a este caldo de desafios doses maciças de teimosia para assegurar a manutenção da própria imprensa como instituição fundamental para as sociedades democráticas.
Os balanços das entidades de defesa da liberdade de imprensa são sempre assustadores quando chegam ao capítulo da América Latina.
Há ditaduras que figuram nos piores índices em qualquer ranking de perseguição ao jornalismo livre, como Cuba e Nicarágua.
Há assassinatos recorrentes de jornalistas, como no México, onde este ano haviam sido mortos até 15 de agosto sete profissionais de imprensa.
E há ainda as intimidações constantes de governos de extrema direita e de esquerda.
Tais regimes, que se multiplicaram na região na esteira da polarização, muitas vezes elegem a imprensa como inimiga, como forma de tentar eliminar o intermediário das más notícias e da fiscalização sobre seus governos.
O mundo, de fato, nunca foi fácil para jornalistas na América Latina. Mas agora apenas a teimosia, traduzida pela resiliência neste sacerdócio, se mostra capaz de resistir à onda devastadora das mudanças de algoritmos e à apropriação desautorizada de conteúdos jornalísticos tão arduamente produzidos e que são usados para alimentar os modelos de Inteligência Artificial sem quase nenhum reconhecimento.
Todos defendem a liberdade de imprensa, mas ela precisa, além de liberdade, de uma imprensa robusta e economicamente saudável.
É preciso agregar a este caldo de desafios doses maciças de teimosia para assegurar a manutenção da própria imprensa como instituição fundamental para as sociedades democráticas. Os balanços das entidades de defesa da liberdade de imprensa são sempre assustadores quando chegam ao capítulo da América Latina.
O aniquilamento gradual do ecossistema jornalístico interessa a regimes autoritários, a governos e políticos corruptos e a todos aqueles que enxergam na imprensa profissional não um aliado contra a barbárie, e sim um inimigo a ser destroçado. Mas não deveria interessar às big techs e aos modelos de IA.
Informação verificada, equilibrada e plural, é um bem cada vez mais escasso neste mundo atordoado pelas manipulações e deep fakes.
Deveria, portanto, ser tratada como um bem precioso pelas bilionárias plataformas de IA, que pagam fortunas por talentos, softwares, chips, energia e datacenters, mas se recusam a remunerar devidamente os fornecedores de seu insumo mais relevante, exatamente a informação precisa e confiável ainda produzida pelas redações.
Sem jornalismo profissional, uma vasta camada de dados das plataformas de IA será um imenso lodaçal no qual as alucinações e aberrações desinformativas vão imperar.
Quem quiser ter uma ideia de como seria esse novo universo deve recordar o que ocorreu em Ceuta em julho passado.
Mais de 70 mil marroquinos, em sua maioria jovens, se lançaram ao mar porque acreditaram piamente em uma desinformação propagada em alta velocidade pelas redes sociais e grupos de mensagem, de que bastaria chegar pelo mar a Ceuta para ter a Europa sob seus pés.
Agora, segundo a última pesquisa do Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, 52% dos jovens entre 18 e 24 anos se informam prioritariamente por redes sociais.
O resultado da tendência? Uma massa enganada e mais de 80 corpos retirados do mar.
Essa visão do inferno informativo é um aperitivo do que pode acontecer se prosseguir a erosão do ecossistema jornalístico.
O aniquilamento gradual do ecossistema jornalístico interessa a regimes autoritários, a governos e políticos corruptos e a todos aqueles que enxergam na imprensa profissional não um aliado contra a barbárie, e sim um inimigo a ser destroçado. Mas não deveria interessar às big techs e aos modelos de IA.
Sem reportagens investigativas, os corruptos, os devastadores do meio ambiente, os exterminadores de direitos humanos, os déspotas e uma vasta legião de malfeitores, muitas vezes fora do alcance das leis, terão mãos livres para agir.
Sem pluralidade, a sociedade perderá a noção dos pesos e contrapesos, essenciais nos processos de escolhas nas democracias, e se tornará cada vez mais refém de extremismos e da polarização. Sem jornalismo confiável, nossas sociedades retrocederão séculos de civilização.
Um extraordinário filme brasileiro, Ainda Estou Aqui, teve três indicações ao Oscar em 2025 e conquistou o de Melhor Filme Internacional.
Ele narra a resistência moral, ética e emocional de uma família diante da desfaçatez da ditadura militar depois do desaparecimento do pai, um deputado federal de tendência moderada mas ainda assim encarado como inimigo a ser eliminado.
O jornalismo na América Latina vive uma situação parecida. Sofre com violência, perseguições e injustiças e agora com a ameaça existencial de destruição pela inteligência artificial.
Mas ainda estamos aqui. E nunca custa lembrar o que apregoa uma tradição oral brasileira inspirada na resistência dos indígenas: enquanto houver bambu, haverá flecha.
(*) Este artigo de opinião foi encomendado como parte da campanha “Dia Mundial do Jornalismo” uma iniciativa que destaca o papel essencial do jornalismo na oferta de fatos e clareza.