Lixo de luxo | Boqnews

Ponto de vista

Foto: Nando Santos
14 de março de 2018

Lixo de luxo

Material reciclável jogado nas calçadas: prática é comum. Foto: Nando Santos/Arquivo

Muito se discute sobre a metropolização.

O tema aborda os mais variados assuntos que, aliás, já fazem parte há tempos do cotidiano das pessoas.

O discurso político, porém, soa como palavras ao vento. Vão e não voltam.

O tempo passa, os prazos se encurtam e na prática o avanço é tímido.

Muitas retóricas, poucas ações.

Há tempos se discute a necessidade de ação metropolitanas quanto à destinação final dos resíduos sólidos. Afinal, são 680 mil toneladas de resíduos gerados anualmente.

Quase 2 mil toneladas/dia.

Uma quantia expressiva, sendo que temos ainda uma população flutuante, especialmente no verão e finais de semana que ajuda a engordar estes números.

Apesar da ampliação do prazo de vida útil do aterro sanitário dos Sítio das Neves, até as aves que circulam a área sabem que o local está com os dias contados.

Lixo com data marcada

Mais precisamente: maio de 2019.

Somente no final de 2016, porém, tanto as prefeituras como o Governo do Estado via Agem – Agência Metropolitana resolveram se mobilizar para iniciar a discussão sobre o assunto, de vital importância coletiva.

O IPT – Instituto de Pesquisas Tecnológicas foi contratado para realizar um amplo levantamento sobre o atual e futuro cenários e quais caminhos serão traçados para encontrar uma alternativa a ser colocada em prática ao longo das próximas décadas.

No entanto, entre as discussões públicas, iniciadas na última semana, até a tomada de uma decisão, toneladas de lixo são produzidas.

Não bastasse, qualquer tempo de execução de uma alternativa demorará anos.

Conforme o estudo, a melhor opção sugerida passa pela triagem semi-mecanizada para separar o que é ou não reciclável.

Hoje, o índice regional é pífio.

Apenas 1,6% do total do lixo produzido vai para reciclagem.

O objetivo é atingir quase 20% a médio prazo.

Para tanto, há a necessidade de um amplo programa de conscientização ambiental sobre a necessidade da reciclagem, estimular cooperativas e criar condições de incentivo à prática, algo bem distante da realidade atual.

E na orla?

Por exemplo, se um banhista consome algum produto em garrafa ou plástico nas praias (as latas de alumínio são disputadas em razão do seu valor de venda), o destino final será o de misturar-se ao lixo comum, uma insensatez.

Um exemplo para ilustrar a realidade.

De forma complementar, surge a polêmica opção da (s) usina (s) de incineração de lixo, deixando de cabelo em pé os especialistas na área ambiental.

Como o tempo urge, não será surpresa ser esta a solução encontrada, a despeito dos riscos ambientais e à saúde da população.

A atuação seria em parceria com a iniciativa privada, em um investimento de R$ 821 milhões e custo operacional anual de R$ 82 milhões.

Diante deste cenário de incertezas, um fato é concreto: o encarecimento do custo da coleta de lixo.

Pois mesmo em fase de implantação da nova alternativa, provavelmente o lixo regional será enviado para Mauá, encarecendo o custo da coleta até a implantação efetiva da alternativa encontrada.

Em suma, o lixo vai se tornar artigo de luxo no bolso da população.

O tempo comprovará.

 

Comentário 

Prezado jornalista Fernando De Maria,

Bom dia.

Sou André Staudemeier Gonçalves, engenheiro de produção e ambientalista, frequentador da Estação da Cidadania.

Gostaria de, primeiro, parabenizá-lo pelas reportagens e artigos do Boqnews sobre o problema do lixo na RMBS, sempre com uma visão crítica da má gestão pública que ocorre nesse assunto há anos.

Escrevo principalmente para comentar a mais recente entrevista com o subsecretário de Assuntos Metropolitanos, Edmur Mesquita, em que ele afirma que se queima lixo em uma usina em Piracicaba, dando a entender que já existe um precedente de usina de incineração de lixo no Estado.

Esta informação não procede, pois o próprio site da empresa destaca em letras maiúsculas que se trata de USINA DE TRATAMENTO MECÂNICO BIOLÓGICO. Este vídeo e esta reportagem complementam as informações.

Ecoparque

Esta reportagem explica resumidamente o que é CDR (Combustível Derivado de Resíduo, mencionado na reportagem) produzido na planta ECOPARQUE de Piracicaba, que não é queimado no local, mas em fornos de indústrias, cimenteiras especialmente, que promovem o devido tratamento dos gases.

Inclusive, se quiserem mesmo queimar os resíduos, essa alternativa de produzir CDR deve ser mais barata do que construir um incinerador, porque já temos altos-fornos em indústrias cimenteira e siderúrgica no Cubatão.

Me preocupa quando o Sr. Edmur afirma que a escolha por esse modelo de valorização energética (incineração/pirólise/gaseificação) é um consenso entre as secretarias estaduais de meio ambiente e de energia (13:00 aos 15:00 do vídeo), que faz parte de um projeto de Estado.

Dá a entender que o estudo do IPT é mera formalidade para dar aparência de que foi escolha técnica, e não política.

Talvez eu tenha entendido errado, mas foi isso que me pareceu a fala dele.

Também gostaria que pesquisassem mais a fundo como se dá esse acordo/convênio (ou seja lá como é chamado) entre o governo do estado de São Paulo e o governo da Baviera/Alemanha.

Pois parece que sempre as soluções encontradas para nosso país são as tecnologias obsoletas de lá, como bem mencionado por vocês em artigo na edição 1143.

Creio que, como jornalistas, vocês consigam ter mais facilidade de acessar as informações e saber onde procurar.

Atenciosamente,

André S. Gonçalves – engenheiro de produção e ambientalista, frequentador da Estação da Cidadania.

Fernando De Maria
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