Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Mais uma conta à classe média

O debate até aqui demonstra total falta de sintonia com o atual momento vivido pela sociedade brasileira, sobrepujada pela redução das atividades econômicas

15 de outubro de 2020 - 10:59

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Mais uma vez, ao que tudo indica, caberá à classe média brasileira arcar com a conta proveniente do projeto que prevê a criação de um programa social visando ampliar o atendimento destinado às famílias pobres, visando substituir o atual Bolsa Família e, ao mesmo tempo, incluir outras demandas sociais, como o auxílio aos trabalhadores informais. Denominado inicialmente de “Renda Brasil”, o projeto ainda não conta com os recursos orçamentários necessários, estimados em R$ 25 bilhões anuais, para assegurar sua implementação, tendo em vista que os valores previstos para o pagamento dos benefícios obrigatoriamente deverão ser provenientes do aumento da arrecadação das receitas ou do corte em investimentos e despesas da máquina federal.

Como sempre, a discussão ora travada no âmbito do Congresso Nacional, reunindo parlamentares e técnicos na área econômica do Governo, se limitou a debater sugestões e propostas prevendo a criação de novos tributos, congelamento de benefícios previdenciários aos que recebem mais de um salário mínimo, suspensão de pagamentos de precatórios, extinção de desconto padrão do Imposto de Renda, entre outras teses que, em nehum momento, preveem cortes nos gastos para manutenção de benesses e mordomias nos âmbitos dos três poderes.

Ao negar a possibilidade de racionalizar o uso dos recursos públicos, com a revisão de gastos com projetos de serventia duvidosa e despendidos à manutenção das elites do funcionalismo público, especialmente a partir de supressão das vantagens adicionais que ajudam na burla do teto salarial determinado pela Constituição, o debate até aqui demonstra total falta de sintonia com o atual momento vivido pela sociedade brasileira, sobrepujada pela redução das atividades econômicas ocasionada pelo período de pandemia, com a consequente diminuição das ofertas no mercado de trabalho e diminuição da renda média das famílias.

Havemos sempre de lembrar que o custeio das instituições que alicerçam o estado político brasileiro já é por demais oneroso diante das imensas necessidades da população, especialmente dos milhões de brasileiros ainda relegados à pobreza extrema. Há muito a classe média paga por contas que não contraiu, arcando com os desmandos e prejuízos oriundos da incompetência e, em muitos casos, má fé, de governantes e legisladores. Mesmo que utópico diante do que se possa esperar do perfil oportunista que forja a maioria da classe política nacional, o desejo é o de que pelo menos desta feita o desfecho seja diferente.