Marquises e sacadas | Boqnews

Ponto de vista

13 de abril de 2026

Marquises e sacadas

ADILSON LUIZ GONÇALVES

O texto original é de 2007, mas permanece atual:

De tempos em tempos, acidentes estruturais com sacadas e, principalmente, marquises de edificações ocupam, com destaque, as manchetes de jornais.

Eles são raros, mas sempre dramáticos, potencializando, além de danos materiais e custos de reconstrução, acidentes fatais ou com sequelas graves.

As marquises e sacadas são apêndices da construção. As marquises, especificamente, servem para proteção contra as intempéries para veículos e pedestres.

Ambas são estruturalmente definidas como estruturas “em balanço”, apoiadas apenas em uma das extremidades. Essa configuração estrutural faz com que a parte mais solicitada dessas estruturas seja a superior, sujeita a esforços de tração, que provocam alongamento.

Para quem não sabe, o concreto é um material frágil, ou seja: deforma pouco antes de romper.

Além disso, ele apresenta comportamento diverso à tração e à compressão. Concretos convencionais resistem bem menos à tração do que à compressão (aproximadamente: 10%).

Para compensar essa deficiência de resistência, normalmente são utilizadas armaduras de aço nas regiões tracionadas. Nas estruturas em balanço, a região com armadura principal é, obviamente, a superior.

Eu costumava dizer aos meus alunos de Arquitetura e Urbanismo que a profissão de engenheiro é uma das mais ingratas que existem, pois, ao contemplar uma obra imponente, os leigos perguntam: “Quem foi o arquiteto?”; mas, quando ocorre um acidente estrutural, a pergunta é, a priori, sempre outra: “Quem foi o engenheiro?”.

Para os alunos engenheiros, a analogia era com os médicos, pois, se um erro médico pode ser ocultado “sete palmos” abaixo da superfície, um erro de engenharia fica acumulado alguns metros acima dela. Um erro médico pode gerar uma vítima direta; já um erro de engenharia pode vitimar várias pessoas, destruir patrimônios, convulsionar cidades!

E qual é o valor que a sociedade dá aos engenheiros?

O fato é que, quando um engenheiro tem condições adequadas para desenvolver seu trabalho, tudo funciona bem… E ninguém nota!

No entanto, as causas de um acidente estrutural não estão restritas, como a maioria costuma atribuir, à atuação de engenheiros, em suas múltiplas funções.

Um sinistro desse tipo pode ocorrer por vários motivos: erro de projeto, erro de construção, materiais inadequados, uso incompatível ou falta de manutenção, para citar os principais.

Os três primeiros têm a ver, diretamente, com a engenharia e a construção civil ou pesada:

O dimensionamento da estrutura pressupõe as cargas para a utilização prevista para o usuário final (uma unidade habitacional é bem diferente de um armazém de materiais de construção, por exemplo).

O uso de concreto de resistência inferior à estipulada no projeto, ou além do prazo limite de aplicação, pode ter consequências trágicas.

Um dos problemas mais frequentes é no âmbito da execução:

Como foi dito, no caso de marquises, as armaduras principais de aço são posicionadas na parte superior dessas estruturas.

Dependendo da agressividade do meio ambiente, elas não representarão risco; mas, no caso de marquises e sacadas, que normalmente estão expostas às intempéries, as consequências podem ser trágicas!

Só que, durante o processo de concretagem, elas podem sair dessa posição, devido ao tráfego dos operários e equipamentos, por exemplo.

Cabe à fiscalização da obra cuidar para que elas sejam recolocadas adequadamente.

Quando isso não ocorre, os esforços de tração, em vez de serem absorvidos pelas barras de aço, afetam o concreto.

Como ele apresenta baixa resistência a esse tipo de solicitação, passa a apresentar elevada fissuração que pode evoluir até trincas e, no limite, à ruptura.

Mesmo que a armadura esteja bem posicionada e a concretagem seja tecnicamente perfeita, ainda assim o concreto apresentará microfissuras, o que é normal.

Dependendo da agressividade do meio ambiente, elas não representarão risco; mas, no caso de marquises e sacadas, que normalmente estão expostas às intempéries, as consequências podem ser trágicas!

Por quê? Porque o ar e a umidade, contaminados com matéria orgânica (fezes e urina de animais), elementos químicos (poluição ambiental), salinidade (sobretudo em áreas litorâneas) etc., penetram nas fissuras e provocam a corrosão das armaduras.

É por isso que as áreas expostas às intempéries necessitam de proteção, que é feita mediante impermeabilização.

O que nem todos sabem é que existem vários tipos de impermeabilizações, com os mais variados materiais e técnicas de aplicação, com vidas úteis diferenciadas, cuja especificação depende de uma série de fatores.

Infelizmente, a maioria dos condôminos é leiga, desconhecendo ou negligenciando sinais, ou preferindo optar pelo sistema mais barato (pintura de base asfáltica, sem proteção superficial), aplicado por pessoal não especializado, sem garantia e sem responsável técnico.

Bem, estamos falando de pessoas que ainda têm o mérito de preocupar-se com o problema.

Infelizmente, a maioria só pensa na impermeabilização quando surgem manchas de umidade na face inferior das lajes, as armaduras corroídas aparecem, ameaçadoras, ou a vegetação transforma as marquises em jardins suspensos.

Isso ocorre porque, via de regra, os condomínios, residenciais ou comerciais, e, até, os edifícios públicos não dispõem de rotinas para inspeção e manutenção preventiva das edificações!

Dessa forma, as intervenções são paliativas (escondem o problema) ou, majoritariamente, corretivas (quando ainda há tempo para fazê-las) e, por isso mesmo, muito mais caras.

Numa nova analogia com a Medicina, o usuário só dá importância ao problema quando ele vira crônico, grave ou incurável!

A drenagem adequada e permanentemente funcional também é fundamental para assegurar a integridade e durabilidade dessas estruturas. Ralos e buzinotes entupidos resultam em acúmulo de água, que aumenta a sobrecarga das estruturas, comprometendo sua integridade.

Portanto, os ralos devem ser limpos regularmente, para evitar o acúmulo de folhas de árvores, animais mortos e sujeira de condôminos porcalhões. Atenção! Isso é manutenção, e cabe ao usuário providenciá-la!

O mau uso também é um problema gravíssimo!

Uma marquise é, normalmente, dimensionada para suportar, além de seu próprio peso e do sistema de impermeabilização, sobrecargas leves, decorrentes de serviços de manutenção de sua superfície.

Não pode, em absoluto, servir como área de estocagem do entulho de demolição de fachadas, a menos que esteja adequadamente escorada.

Em suma, problemas decorrentes de projeto e execução são detectáveis durante o processo de construção, e seus responsáveis, perfeitamente identificáveis.

Já os resultantes de má conservação e uso inadequado têm a ver com o usuário.

A legislação vigente prevê prazos de responsabilidade de projeto e construção, inclusive quanto aos vícios aparentes e ocultos.

Se o proprietário é leigo, recomenda-se que contrate um profissional habilitado para efetuar vistorias periódicas, algo como um engenheiro ou arquiteto “de família”, que orientará sobre as medidas preventivas ou corretivas que forem necessárias.

O custo será, com certeza, bem inferior ao das despesas médicas, custas judiciais e indenizações, decorrentes de acidentes estruturais. Isso também tende a favorecer o condomínio, quando da renovação de seguro.

Algumas prefeituras já dispõem de instrumentos legais que obrigam os proprietários de edificações a apresentarem laudos técnicos periódicos.

Isso é justificado, mas não necessariamente efetivo.

A mitigação dos riscos de acidentes estruturais passa, indissociavelmente, pela conscientização do usuário de que a segurança, a funcionalidade e a durabilidade de seu patrimônio dependem de procedimentos tão simples quanto imprescindíveis, mas que demandam a atuação de profissionais legalmente habilitados no CREA ou CAU.

Isso vale para todos os elementos construtivos, e não apenas para instalações elétricas, hidráulicas e elevadores. Só que infiltrações, armaduras expostas e deformações excessivas são sintomas igualmente importantes!

No caso de marquises e sacadas, os riscos são ainda maiores, sobretudo quando a impermeabilização é negligenciada.

É fato que existem materiais mais leves, que podem ser utilizados em substituição ao concreto armado na confecção de marquises.

Porém, nenhum deles, por mais resistentes e duráveis que sejam, dispensa usos compatíveis com os previstos no projeto estrutural e manutenções periódicas.

“Empurrar com a barriga”, praticar “automedicação” ou apelar para o curandeirismo de “profissionais experientes” em “guaribadas” e “tapas” na área de construção (que aplicam a única solução que aprenderam para todos os problemas) é como tratar um câncer com analgésicos e maquiagem, deixando que vire metástase.

Quem fica doente por negligenciar sua saúde pode culpar o médico?

Quem sofre as consequências jurídicas de seus atos e omissões pode culpar o advogado?

Pois é…

Da mesma forma, erros de projeto e construção são de responsabilidade de seus autores dentro dos prazos legais; mas a falta de manutenção (ou manutenção inadequada) e o mau uso são de responsabilidade exclusiva do proprietário!

Então, é preciso cuidar do patrimônio com a assessoria de um engenheiro ou arquiteto! Isso dá garantias técnicas e jurídicas ao proprietário.

No caso específico de marquises e sacadas — as estruturas “em balanço”, mencionadas no início do texto —, também assegura que elas nem balancem, nem caiam.

 

Adilson Luiz Gonçalves
Adilson Luiz Gonçalves, Escritor, Engenheiro, Pesquisador Universitário e membro da Academia Santista de Letras
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