Ponto de vista
A mesa de seis lugares
Os 20 anos naquele trabalho esculpiram a imagem de Silvana. Lidar com dependentes químicos e, principalmente, com os burocratas a tornaram uma mulher respeitada na repartição. Até os inimigos a respeitam, por medo da língua afiada, por se relacionar com os personagens em albergues.
Silvana se alimentava da fama de independente. Quase uma feminista de sutiã queimado em praça pública. Com duas filhas pré-adolescentes, mora em casa própria, nunca levou desaforo de chefia e sempre escolheu onde trabalhar. O pai das garotas foi expulso de casa e se refugiou na loja, uma quitandinha bem mequetrefe. Dorme nos fundos e só aparece na casa dela para transar.
Ontem, Silvana chegou à seção suando frio. “Não falem comigo que hoje eu não tô boa!” Ela tinha enforcado a manhã toda. Naquela sala, a ordem é se proteger das intrigas do andar de baixo, um mundo de confidências entre Silvana e as duas colegas de trabalho.
Silvana afogava manhãs, estendia almoços, saia mais cedo e chegava mais tarde. As colegas falaram em depressão, pensaram em crise no casamento e especularam sobre drogas.
Uma das colegas fechou a janela – conhecia os gritos de desabafo. A outra passou a chave na porta. Silvana foi seca. “Quando ia sair para pagar uma conta, Juarez me encheu o saco por causa do meu vestido e comprei uma mesa de seis lugares.” As colegas se olharam e uma delas perguntou: “Pera aí, o que tem a ver conta, Juarez e mesa?”
Embora esbaforida, Silvana conseguiu explicar a história. Juarez passou na casa dela logo cedo. Aliás, ele fazia isso todo dia, logo depois que as filhas saiam para a escola. Geralmente, ele encoxava – ou encurralava – Silvana na pia da cozinha.
Silvana nunca recusava. Temia que ele transformasse os fundos da quitanda em sede de aventuras. A briga começou quando ela disse que pagaria uma conta, coisa que Juarez nunca fez naquela casa. Quando a viu de vestido preto, ele vomitou: “tá parecendo uma vagabunda logo cedo. Vai arrumá homi no banco?” Silvana serviu palavrões como aperitivo para o almoço. Marido para fora novamente.
Quando ela respirou, uma das colegas engatou a pergunta: “Tá, Silvana, e onde entra a mesa?” Silvana despejou seis cartões de crédito. “Já estourei cinco. Hoje, acabei com o último. Cada um deles tem limite de cinco paus.”
Silvana respirou para explicar. “Este chegou ontem. E comprei uma mesa de seis lugares. Madeira boa. Quatro mil reais. Vou pagar em 24 vezes.”
Enquanto passavam a tarde fazendo contas, Silvana desembuchou. Comprou um contêiner de tranqueiras, sabe-se lá por causa das brigas ou do sexo mal resolvido. Se juntasse tudo, pareceria um daqueles caminhões de prêmios da TV. Quando a calculadora estava ofegante, saiu o veredito do conselho. Se não comesse mais, ainda assim teria uma prestação de cinco mil reais até o final de 2015. O dobro do salário dela.
Silvana se antecipou. “A mesa, não devolvo. E Juarez não vai pagar nada. Tem pinto, mas não é galo.” Uma das colegas se encorajou e disse baixinho. “Quebre os cartões, Silvana.”
Ela catou a bolsa, beijou as duas e abriu a porta. “Gente, preciso sair mais cedo hoje. Falta um arranjo de mesa. Já imaginou se o Juarez ou as meninas reparam que a mesa tá vazia? Vão achar que sou uma vagabunda.”