Neuza, sempre jovem | Boqnews

Opiniões

29 DE OUTUBRO DE 2019

Neuza, sempre jovem

Por: Marcus Vinícius Batista

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Neuza Felício sempre foi um doce comigo. Além da educação de todo dia, ela tinha um assunto a tratar todas as segundas-feiras: minha antiga coluna semanal no Boqnews.

Quando era crítica política, ela me alertava: “você ainda vai perder o emprego”. E sorria. Quando era uma crônica convencional, nascia um papo por identificação com o personagem, com o episódio, uma pequena lembrança cotidiana que reforçava nosso vínculo de amizade antes das minhas aulas.

Numa segunda-feira, há oito anos, não houve bom dia ou tudo bem. Tampouco o sorriso. As frases vieram secas: “Não sou velha! Como você pôde me chamar de velha?” Um ou dois segundos para me recompor da lambada auditiva e entender o que se passava. Claro, era o texto publicado no dia anterior.

“O tempo é hoje!” dizia exatamente o contrário, que a velhice era uma questão de mentalidade, que poderíamos questionar expressões politicamente corretas, exercícios que mascaravam as mudanças corporais sem considerar a forma de levar a vida como fator essencial. (Você pode lê-lo aqui)

Neuza era adepta do tempo hoje! E sabia disso, exceto naquela segunda. Nunca a vi despenteada, sem maquiagem, com roupas que não combinassem, acompanhada de um sapatinho de salto. Andava com a coluna ereta, passos curtos apressados, uma bolsa esteticamente adequada a tiracolo e, acima de tudo, o sorriso no rosto.

Ela foi minha colega de trabalho por 16 anos. Jamais levantou a voz, nunca foi grosseira. Quando estávamos juntos na sala dos professores, nunca testemunhei se queixar do trabalho burocrático, por vezes obsoleto, por vezes desnecessário ou inútil. Como qualquer um, reclamava de algo que a afetava no serviço diário, um atraso de papelada, um ruído na comunicação, normal numa relação de trabalho. Logo depois, passava. Falávamos de outra coisa.

Descobri, há quase dez anos, que éramos vizinhos. Bairros diferentes, porém apartados por três quadras. Depois que sai da universidade, nossos encontros eram, em média, quinzenais. Casuais. De vizinhos, mesmo! Ou ela passava em frente ao meu prédio, no retorno a pé para casa, na hora do almoço. Ou eu a encontrava nas ruas do Jaú, na Aparecida, quando atravessava o conjunto de prédios rumo à escola do meu filho Vini, ao Sesc ou ao shopping.

O encontro implicava em parar para conversar, mesmo que por alguns segundos. Atualizar a vida, repetir as frases feitas do trabalho na universidade, perguntar sobre família, quem encontramos casualmente. Neuza se sentia segura por ali durante o dia. Gostava de caminhar, de bater pernas, exceto durante a noite. Costumava voltar de carona ou de ônibus, sempre recusou meus convites para voltarmos a pé, mesmo que fosse apenas seguir pela rua Frei Francisco de Sampaio, a continuação da rua Lobo Vianna, local de partida da universidade. À noite, tinha muito medo da violência urbana.

Neuza tinha mais fôlego para levar a vida do que muitos colegas de trabalho mais jovens. Os olhos ficavam mais arregalados ao falar das viagens. A última sobre a qual conversamos, antes de eu me licenciar, foi sobre Cartagena, na Colômbia. Todos os passeios com riqueza de detalhes. A gastronomia e seus sabores, comparados com o que experimentava no Brasil, em outras excursões. Eram aqueles cinco minutos preciosos antes da aula, antes, durante ou depois da assinatura do ponto, da retirada da caderneta, de algum esclarecimento ou dúvida.

Não me despedi dela quando deixei a universidade. Não lamento. Foi somente um até logo, comprovado pelos sucessivos encontros nas ruas arborizadas do Jaú, onde adoro caminhar várias vezes por semana.

Novamente, não haverá uma despedida formal. Há a certeza de que ela estará por perto, ali colado com o Sesc, ali nos muros da escola Olga Cury. No lugar onde Neuza está, o tempo corre diferente, com percepções outras. Apenas uma certeza, de fato: sempre será hoje!

Obrigado por tudo.

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