Ponto de vista
Noé
Depois de realizar o seu sexto trabalho como diretor – e também roteirista – em “Noé”, rezemos para que Darren Aronofsky não siga o exemplo do suposto Todo Poderoso, criador do personagem bíblico e idealizador do genocídio travestido de dilúvio universal, e queira descansar para conceber um sétimo trabalho. Diante deste filme, que nasceu para satisfazer o mercado e o público comercial, seria triste esperar demais para ver outras excelentes produções de sua autoria, como “Réquiem Para um Sonho”, “O Lutador” e o belíssimo “Cisne Negro”.
O enredo é baseado na história narrada no Antigo Testamento da Bíblia em que Noé (Russel Crowe), descendente de Set, um dos filhos de Adão e Eva, por meio de Deus, tem uma visão apocalíptica do mundo, que deve ser inundado por uma grande tempestade. Dito isto, sua missão divina é clara: construir uma grande arca e salvar o maior número possível de espécies animais, que serão enviadas de todo o mundo pelo Criador, que está insatisfeito com os pecados do homem – em especial pelo povo descendente de Caim, o outro filho do casal do Éden – e deseja recomeçar o seu projeto do zero.
Mesmo conhecendo pouco da história original, notei que este Noé não segue religiosamente os padrões fictícios da bíblia. Nesta história, o roteiro nos dá respostas que não estão no livro como, por exemplo, “como um homem e sua família pode ter construído algo tão grandioso sozinho?” O filme responde esta questão com os chamados “Guardiões”, anjos que tentaram ajudar os humanos e foram banidos do céu, sendo transformados em gigantes de pedra. Além de proteger a arca dos pecadores, os descendentes de Caim, são trabalhadores bem eficientes.
No que diz respeito ao comportamento humano, a questão é bem trabalhada e faz referência às clássicas discussões dos outros filmes do diretor, como a obsessão. Vejo a história do protagonista como a de um homem que sofre, mas tem o desejo cego de finalizar o que lhe foi solicitado pelo Criador, mesmo que para isso precise sacrificar vidas e carregar dentro de si a responsabilidade de se transformar na principal ameaça dentro da própria família. São características que não se afastam muito dos dependentes químicos de “Réquiem para um sonho” ou a dedicada bailarina de “Cisne Negro”.
Além de Jennifer Connelly e Russel Crowe, excelentes atores, o destaque também fica com Emma Watson, uma das estrelas da franquia “Harry Potter”, que justifica seu trabalho interpretando a personagem Ila, filha adotada de Noé e que fica com a responsabilidade tardia de repovoar a terra com a prática única e exclusiva do incesto.
Tentei fazer comparações com a linguagem cinematográfica, mas, para mim, a de “Noé” não se parece em nada com as que Aronofsky já apresentou em outras produções. É um filme que trabalha e se preocupa com efeitos especiais em larga escala, característica que alimenta os blockbusters. Outro detalhe que exemplifica isso pode ser conferido logo no início do filme – e em outro determinado momento – em que uma explicação narrada exageradamente substitui a informação visual. Uma lástima para quem conhece Aronofsky e sabe o quanto as imagens falam por si.
A direção de arte não fica para trás. Em determinada cena, Noé tem uma de suas visões – bastantes reais. Ao sair de sua barraca, um quadro esteticamente belo chama atenção. Com a câmera estática, a cena mostra Noé levantando e saindo para pensar. No fundo, um belo crepúsculo nos tons azul, laranja e amarelo anunciam o raiar de novos tempos para a sua família. Em seguida, sai Naameh (Jennifer Connelly), sua esposa. Com o crepúsculo de fundo, acompanhamos o diálogo apenas pela sombra dos dois corpos, recortados perfeitamente na noite escura.
O filme, orçado em 125 milhões de dólares, faturou mais de 75 milhões só nos Estados Unidos. Segundo a distribuidora Paramount, a produção, em cartaz desde o dia 3 de abril, registrou público de mais de 1,3 milhão no primeiro fim de semana, acumulando R$ 20 milhões de bilheteria e se consolidando como a maior abertura do ano no país, onde é exibido em 1.015 salas.
Mesmo não sendo comparável aos seus últimos trabalhos em nível de criatividade, a produção não chega a ser uma pedra no sapato de Darren Aronofsky. Pelo contrário, é compreensível sua dedicação para realizar o filme, pois para conceber trabalhos mais profundos, artisticamente falando, alguns diretores necessitam investir nas grandes produções comerciais e garantirem orçamento suficiente para produzir filmes que não vão ser tão prestigiados pelas salas de cinema e público comercial.