Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

Nova ordem política

Para colocar um fim às práticas corruptas nos processos eletivos não bastará apenas a instituição das novas normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral

12 de abril de 2016 - 08:00

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A medida em que avança o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff torna-se cada vez mais evidente a necessidade urgente de realização de uma profunda reforma política no País. Apesar das ressalvas positivas feitas à atuação das instituições públicas, diante do cenário de crise estabelecido pelos conflitos de interesses protagonizados a partir da Operação Lava-Jato, é perceptível a falência do sistema político vigente, onde o exercício do poder se dá por meio de chantagens, barganhas e sem qualquer viés ideológico ou programático. Atesta-se assim a consolidação de um modelo institucional onde as negociatas por cargos públicos e benesses individuais sobrepõem os interesses da coletividade, com total desprezo aos conceitos éticos e morais que, por princípio e obrigação, devem sustentar os regime democráticos.

Da mesma forma, o aprofundamento das investigações realizadas pela Polícia Federal e o conhecimento dos conteúdos das delações premiadas tornam visíveis os sofisticados mecanismos de corrupção montados para irrigar campanhas eleitorais, práticas que, a bem da verdade, são reproduzidas há muito tempo nos diferentes níveis de disputa eleitoral pela quase totalidade das candidaturas, em menor ou maior grau. Nesse contexto, as eleições municipais a serem realizadas em outubro próximo representam uma grande oportunidade para interromper esse ciclo vicioso, uma vez que passará a valer a proibição de doações empresariais, limitando as campanhas à utilização de recursos provenientes do erário público e de contribuições individuais.

No entanto, para colocar um fim às práticas corruptas nos processos eletivos não bastará apenas a instituição das novas normas estabelecidas pela Justiça Eleitoral, uma vez que elas também estarão suscetíveis à burla e às manobras eleiçoeiras que têm caracterizado muitas das campanhas eleitorais ao longo da história brasileira recente. Mais do que nunca, o papel do eleitor reveste-se de extrema importância, visto que estará em suas mãos a escolha de candidatos realmente comprometidos com a construção de uma nova ordem política, que há de valorizar a honestidade e a competência ao invés da perniciosa troca de favores.

Somente com o efetivo envolvimento da população e das entidades representativas da sociedade civil, na fiscalização e acompanhamento permanente da conduta ética apresentada pelos postulantes aos cargos eletivos, será possível renovar os paradigmas utilizados na realização das campanhas, bem como estimular a formação de eleitores mais conscientes de suas responsabilidades perante a coletividade e dispostos ao exercício contínuo da cidadania.