O adulto-criança (Crônicas de uma epidemia) | Boqnews

Opiniões

17 DE ABRIL DE 2020

O adulto-criança (Crônicas de uma epidemia)

Por: Marcus Vinícius Batista

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Ele pode ser qualquer um. Não tem um tipo físico bem definido, mas um certo tipo de inteligência emocional o define. Pode ser homem ou mulher, ainda que suas ações possam indicar que ainda não cresceu. Tem idade para andar sozinho, mas pode ser alguém que sair sozinho indica que passou da idade. Ou não alcançou a maturidade, tanto faz.

O adulto-criança não está dentro de casa. Sua individualidade só existe em público. Ele quer estar na rua, se exibir para o mundo, ostentar sua onipotência, renovar seu vazio mesmo que o bairro esteja vazio de gente.

O adulto-criança é uma criança mimada. Como disse uma amiga médica, ele repete com seus olhares desafiadores não vistos por ninguém: “Ninguém manda ni mim”. E bate o pé. E tasca feições emburradas, misturadas com sorrisos de vitórias sem espectadores, recheada pelo andar peito de pombo, talvez só testemunhado pelas aves que lhe são indiferentes. Só não se deita no chão porque suja a roupa.

O adulto-criança se rebela contra tudo. É adepto do “se você não está comigo, está contra mim.” Reza pelo mantra: “essa é minha opinião.” E, quando não se rebela nas bolhas virtuais, resolve carregar sua bolha para a vizinhança. Sai de casa pela simples razão de desafiar quem não o conhece.

Você conhece alguém que ficou doente?, pergunta, inflamado de que seu mundo é o mundo. “O que não conheço não existe” é seu lema. O resto é conspiração chinesa, coisa de europeu com seus problemas, de americano (ontem amigo, hoje inimigo) que quer ganhar dinheiro, de comunistas, da mídia, e por aí vai na lista de culpados.

Sua mente o fez presa fácil. A mentalidade de capitão-do-mato o fez o melhor dos dominados. Não enxerga um vírus à frente do nariz, quanto mais seu próprio comportamento virulento. E tem justificativas narcisistas para todas as situações: só existe o certo e o certo, certo estou eu.

O adulto-criança está nos supermercados, nas farmácias, nas praias, dentro dos ônibus, nos parques ou nos calçadões da cidade onde moro, por exemplo. É lá, no palco improvisado dos serviços essenciais que ele encontra eco – ou espaço de constrangimento – para construir palanque no qual reinará o conflito, o destempero, a gritaria contra os estúpidos a mando de algum mal de plantão.

Ele (ou ela) não é alguém rico, pois estes – claro – não andam na rua. Ele não é o pobre ou o classe média assalariados, estes andam na rua por uma questão de sobrevivência, apavorados por verem o dinheiro, a saúde e as relações de trabalho se esvaírem a cada dia de truculência e alienação proposital dos bastidores do poder. Não tem escolha.

O adulto-criança, ele sim, sai de casa por escolha, mas não por vontade própria. Ele atende às vontades e os desejos alheios, enquanto veste a máscara – não a que protege a boca, mas a que tapa os olhos – da ignorância, do egoísmo, da inconsciência social, do obscurantismo pseudo-científico. Ele garante: não quero discutir política, sem saber que falar de cidadania é falar de política, sem perceber que sua própria condição é política.

O adulto-criança é inseguro como o primeiro dia de jardim da infância. Teme a tudo e a todos. Pode ficar até perto dos outros, mas nunca junto deles. Não confia em ninguém. Vai que se machuca. Ou pega alguma doença, como a mamãe repetiu tanto. E assim engole o choro ao mesmo tempo que a procura para dizer o que fazer.

O adulto-criança sai de casa, muitas vezes, porque sua casa o ameaça, já que convivência consigo é risco de contaminação de si próprio. A calçada vazia é estádio em final de campeonato, com direito às fantasias da multidão que o abraça, muito melhor do que a orquestra desafinada do eu comigo.

O adulto-criança deveria estar nas ruas sim. Por que não trabalhar em hospitais, ajudando a carregar corpos ou na limpeza das alas e corredores, consolando famílias, ouvindo desabafos de profissionais de saúde? Por que não ficar na rua e perceber o sacrifício de motoboys, agentes funerários, motoristas de ônibus, trabalhadores uberizados em geral? Enquanto trabalha, teria direito a tentar convencê-los de que nada está acontecendo, é coisa da cabeça deles.

Ver com os próprios olhos talvez seja a saída para a criança birrenta olhar para frente, além do próprio nariz e acima do umbigo. Enxergar outras pessoas talvez o vacine contra as enfermidades, em princípio, incuráveis de um comportamento que se recusa a escutar: fique em casa! Por você, por mim, pelos outros, por todos.

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