Editorial
Humberto Challoub

Jornalista e Diretor de Redação do Jornal Boqnews. Diretor da Faculdade de Artes e Comunicação da Unisanta

O legado de José Sarney

30 de junho de 2014 - 13:18

Compartilhe

Ao anunciar a decisão de não mais concorrer a cargos eletivos, o senador José Sarney (PMDB-AP), com quase 60 anos de militância política, deixa a vida pública como um dos principais ícones do modelo coronelista que durante décadas prosperou dentro do regime político brasileiro, com predominância em estados do Norte e Nordeste.

Durante décadas, os métodos utilizados pela família Sarney, na verdade, reproduzem práticas antigas adotadas por muitos outros ocupantes de cargos eletivos, que se favorecem da ignorância e da miséria da população para a manutenção de seus currais eleitorais.

Nesse sentido, não há de se estranhar que sua trajetória tenha sido marcada pelo oportunismo e a ocorrência de muitos escândalos envolvendo a má versação de recursos públicos, favorecimentos e infidelidade aos princípios que forjam os ideários partidários.

O histórico de Sarney não se diferencia de tantos outros políticos que reeditam condutas semelhantes. O que o fez diferente é a naturalidade e a tamanha desfaçatez com que conduziu sua vida pública diante da certeza da impunidade por se valer dos estreitos laços que soube manter com os poderes constituídos.

Os conceitos pejorativos atribuídos às carreiras políticas construídas com os métodos utilizados por Sarney, de certa forma, têm contribuído para suscitar questionamentos sobre a real serventia de se manter um sistema democrático nos moldes em que ele está concebido, especialmente quando considerado o seu custo e os benefícios reais que têm proporcionado à sociedade brasileira.

O consenso em torno da necessidade de preservação da democracia, a partir da valorização das instituições e da livre escolha da representação popular, tem sido questionado em razão dos inúmeros desvirtuamentos de conduta da classe política, que demonstra não estar à altura de exercer as funções públicas para as quais são designados.

Sarney deixa como legado o entendimento de que, mais do que exigir a punição dos possíveis culpados pelos atos de improbidade ou corrupção, torna-se latente a necessidade de se promover reformas substanciais no modelo de representatividade política, com a revisão dos critérios eleitorais e de proporcionalidade. Também de que é igualmente importante o estabelecimento de legislações mais rigorosas para punir infratores, de forma que possam servir de exemplo às futuras gerações de políticos.

É certo que o sistema democrático constitui-se no melhor método de assegurar direitos individuais e de livre expressão, porém não pode ser confundido como instrumento para o livre arbítrio daqueles que o utilizam somente em causa própria.

A aposentadoria de José Sarney corrobora, nesse momento, com o esforço para amenizar a depreciação da classe política, visto que torna-se necessário evitar o aumento do descrédito em relação às instituições e a ampliação da desconfiança sobre a validade do regime vigente.

O que o fez diferente é a naturalidade e a tamanha desfaçatez com que conduziu sua vida pública diante da certeza da impunidade