Ponto de vista
O nome que não deveria estar na lista
Alessandro Lopes
Uma história sobre Roma, condenações e os laços que nenhuma opinião deveria romper.
Roma, numa noite em que o Império parecia eterno.
A mesa estava posta. Pão, azeitonas, vinho e duas taças que uma mãe guardava desde a infância dos filhos.
Os irmãos cresceram sob o mesmo teto. Dividiram brinquedos, segredos e sonhos. Aprenderam juntos a caminhar pelas ruas de Roma.
Agora, mal conseguiam se olhar.
— Soube que você está com eles.
— E eu soube que você está contra nós.
O pai pediu silêncio. A mãe ofereceu pão.
Ninguém aceitou.
Naquela manhã, uma lista havia surgido no Fórum. Nela, nomes de comerciantes, artesãos e cidadãos cujas convicções desagradavam a determinados grupos.
— Não comprem deles! Não entrem em suas lojas! Espalhem os nomes!
A multidão obedecia com entusiasmo.
Curiosamente, todos proclamavam amor à liberdade, à justiça e ao respeito. Mas cada grupo parecia reservar essas virtudes apenas aos seus semelhantes.
Um polegar erguido significava aprovação. Um polegar abaixado, condenação.
E Roma, tão orgulhosa de sua civilização, descobria uma maneira extraordinariamente simples de julgar uma vida inteira sem precisar conhecê-la.
À mesa, um dos irmãos levantou-se.
— Não dividirei meu pão com quem pensa assim.
A mãe olhou para a cadeira vazia.
Não compreendia como dois homens que haviam compartilhado o mesmo sangue já não conseguiam compartilhar uma refeição.
Na manhã seguinte, novas tábuas apareceram no Fórum.
Desta vez, não se tratava apenas de deixar de comprar ou frequentar estabelecimentos. Eram proscrições. Os nomes escritos anunciavam perseguição, perda de bens e até a morte.
Entre os condenados estava o irmão que permanecera à mesa.
O outro reconheceu seu nome.
Roma construiu pontes para vencer rios, aquedutos para levar água a cidades distantes e estradas para aproximar povos. Mas quase perdeu dois irmãos porque nenhum deles conseguia atravessar a distância entre duas opiniões.
Por um instante, sentiu a satisfação de quem acredita ter vencido uma discussão.
Então viu soldados caminhando em direção à casa de sua infância.
A vitória perdeu o sentido.
Correu pelas ruas onde haviam brincado. Passou pela fonte onde mergulhavam os pés e pela escadaria onde o irmão o segurara após uma queda.
Chegou antes dos soldados.
Encontrou o irmão junto à porta.
Não houve pedido de desculpas. Nenhum deles mudou de opinião.
Apenas uma pergunta:
— Você vem comigo?
E partiram.
Como arquiteto deste Império, observo uma contradição: Roma construiu pontes para vencer rios, aquedutos para levar água a cidades distantes e estradas para aproximar povos.
Mas quase perdeu dois irmãos porque nenhum deles conseguia atravessar a distância entre duas opiniões.
Naquela noite, a mãe encontrou as duas taças sobre a mesa. Uma ao lado da outra.
Meses depois, soube que os filhos estavam vivos. Continuavam discordando sobre Roma.
Mas estavam juntos.
O Império seguiria erguendo monumentos às suas conquistas. Naquela casa, a maior vitória não tinha estátua, inscrição ou coroa de louros.
Tinha duas taças esperando.
E uma mãe que jamais perguntara aos filhos de que lado deveriam estar para merecer seu amor.
Séculos se passaram. Os impérios desapareceram. As tábuas deram lugar a pequenas telas luminosas. Os nomes continuam circulando. Os polegares continuam decidindo.
E as famílias continuam descobrindo quanto custa transformar uma opinião em sentença.
Talvez, antes de levantar ou abaixar o polegar para condenar alguém, devêssemos olhar para a cadeira vazia à nossa própria mesa.