O paradoxo da guerra | Boqnews

Opiniões

31 DE MARÇO DE 2022

O paradoxo da guerra

Adilson Luiz Gonçalves

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O calvário da Ucrânia remonta aos tempos de Alexandre Nevsky, Príncipe de Kiev, no século XIII. Sim, Kiev já foi capital da Rússia.

A Ucrânia sempre esteve ocupada e fragmentada por conflitos entre russos e suecos, noruegueses, finlandeses, poloneses, tártaros, otomanos e alemães. O resultado dessas disputas tornou a Rússia o maior país do mundo em extensão territorial.

Aproveitando-se da Revolução Russa, em 1917, a Ucrânia declarou independência, em 1918. No entanto, a URSS consolidou seu domínio sobre o país, em 1920.

Josef Stalin (1878-1953) implantou, em 1928, política de requisição compulsória de cereais, a preços fixados pelo governo. Por resistirem a essa imposição, os ucranianos sofreram consequência que ficou conhecida como Holodomor (Grande Fome), que vitimou milhões. Esse crime contra a Humanidade nunca foi reconhecido por soviéticos e nem é, até hoje, por “negacionistas” seletivos. Pior, há os que o justifiquem.

Como uma das Repúblicas da URSS, a Ucrânia teve governos pró-Kremlin. Por ser um país estratégico, os soviéticos a armaram com o terceiro arsenal nuclear da Guerra Fria. Em 1954, como “prova de amizade”, Moscou entregou-lhe a península da Crimeia, sede da frota soviética do Mar Negro.

O desastre nuclear de Chernobyl, em 1986, foi o estopim da debacle da URSS, em 1991, ano em que a Ucrânia declarou independência, o que não agradou nem um pouco Moscou.

Em 1994, foi assinado o Memorando de Budapeste, acordo entre EUA, Federação Russa e Reino Unido, depois China e França, todos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. Esse acordo oferecia garantias aos países que aderissem ao Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares. Esse memorando, com a “boa intenção” de evitar escalada nuclear planetária, assegurou esse poder apenas aos que já o detinham.

A Ucrânia, temendo nova invasão, assinou o acordo, devolvendo seu arsenal nuclear à Rússia. Isso não impediu Putin de fomentar movimento separatista na Crimeia, em 2014, posteriormente reincorporando a península.

Embora indiretamente, o Memorando de Budapeste foi descumprido, mas não houve maiores consequências em nível mundial. De certa forma, todos o membros do Conselho de Segurança da ONU têm “culpa no cartório”.

Insegura, a Ucrânia passou a considerar sua adesão à OTAN, a exemplo de alguns países do leste europeu, nenhum deles estrategicamente tão importante e próximo da Rússia.

Os movimentos separatistas de Donetsk e Luhansk foram o embrião da invasão russa à Ucrânia; e as exigências de Moscou são pelo abandono das pretensões ucranianas e sua submissão aos interesses da Federação Russa.

A ação de Putin foi condenada pela maioria dos membros da ONU! Sanções foram impostas à Rússia! Há reações contra a guerra mesmo entre a população russa!

Putin, um virtual ditador neostalinista, está testando limites e tem “cacife” para bancar seu “jogo”. Pode servir de exemplo para outros? Taiwan estaria sob risco?

Essa guerra já configura nova tragédia humanitária e, embora envolvendo dois países, já virou mundial. Uma guerra sem armamentos, mas que já afeta bombas de combustíveis e coloca discursos panfletários, oportunistas, e proselitismos políticos em cheque.

Não creio que haverá uma conflagração nuclear de fato. Mas, fica a pergunta: No contexto atual, é possível um país ser autodeterminado sem poderio nuclear dissuasor?

Trata-se de um questionamento que beira à insanidade. Mas, considerando os malucos de esquerda e direita que governam o mundo, é um paradoxo para pensar.

Adilson Luiz Gonçalves é  escritor, engenheiro e pesquisador universitário, membro da Academia Santista de Letras.

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