O purgatório político | Boqnews

Ponto de vista

22 de novembro de 2012

O purgatório político

Paulo
e Marcelo – nomes fictícios – trabalham na Prefeitura de Santos há 10 meses. Eles
foram contratados em caráter de emergência porque exercem funções técnicas
específicas. Nunca assinaram um papel. Recebem cachês mensais, nome dado ao
salário. Trabalham em finais de semana e feriados, inclusive. Os cachês os
excluem do pagamento de horas extras. 

Assim que a eleição passou, eles
deixaram de ser remunerados. Convivem também com a ameaça de que não
continuarão na Prefeitura com a mudança de governo. Os dois não recebem há 40
dias. Parte das contas está atrasada. No banco, chegaram ao limite do cheque
especial.

As desculpas para o atual “trabalho
voluntário” variam todas as semanas. O depósito em conta fica sempre para daqui
a dez dias. Na semana passada, ambos faltaram ao trabalho porque os cartões de
transporte estavam zerados. Um dos chefes chegou a chorar com a situação e deu
R$ 50 a um deles para que trabalhasse mais alguns dias. Os dois fizeram
empréstimo bancário e procuram trabalhos alternativos para amenizar o choque
nas finanças pessoais.

Paulo e Marcelo não são exceções. Há
outros funcionários sem receber os cachês. O exemplo deles marca um período leviano
e perverso na política: a fase de transição. Os tubarões brigam e especulam
sobre os cargos de segundo e terceiro escalões, frutos de acertos durante a
campanha. Os peixes pequenos – muitos com salários na faixa de R$ 1 mil – ouvem
os boatos enquanto esperam que seus processos sejam resolvidos.

Processos
é a palavra preferida dos burocratas, que parecem leitores do romance de Franz
Kafka, no qual a versão funcionário público de Josef K. desconhece porque está
sob julgamento. A diferença entre ficção e serviço público talvez resida na criatividade
em justificar bolsos e carteiras vazios.

Na Baixada Santista, outras cidades encenam
o purgatório da transição de governo. O limbo é um lugar de espera, de inércia
diante da definição de quem são os pecadores e de quem merece ir para o paraíso.
Enquanto se aguarda Godot, serviços são negligenciados ou extintos.

São Vicente, por exemplo, minimizou a
participação nos Jogos Abertos do Interior. Vários chefes de departamento foram
demitidos. Horas extras não foram pagas, o que provocou uma greve no setor de
saúde do município. A justificativa foi um “problema no RH”, variação calunga
para o “processo” kafkiano santista.

Reeleição não significa blindagem
para desrespeito, seja com servidores, seja com a população. Em Cubatão, a
partir do momento em que sentiu a eleição nas mãos, o PT de Márcia Rosa passou
a repetir o discurso de cofres ocos. O Festival Danado de Bom, de cultura
nordestina, foi cancelado, mesmo com apoio de indústrias. Seis em cada dez
moradores da cidade têm ascendência no Nordeste.

Onde foi parar o dinheiro?
Planejamento, orçamento, destinação de recursos parecem nomes de capítulos de
uma obra de ficção científica, onde o cenário se altera depois da contagem de
votos das urnas eletrônicas.

A fase de transição não consegue
ser, no mínimo, a etapa do piloto automático, também comum em gestões reeleitas.
Na prática, é o período do esconde-esconde, da sujeira embaixo do tapete e da
batalha por manutenção de cargos ou pelo novo emprego em janeiro.

Enquanto isso, quem
trabalha apenas para receber no final do mês está condenado – sem saber por
qual crime – a passar o Natal no inferno do purgatório político-eleitoral. 

Da Redação
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.