Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

O tesouro

16 de janeiro de 2014 - 19:06

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A alma humana é dinâmica. Nestas décadas de trabalho com o jardim secreto que os pacientes me permitem entrar, pude ver a variação de sintomas que no fim e a cabo evidenciavam as mesmas faltas: a falta de entrar em contato verdadeiro com suas próprias emoções, sejam elas de que categoria  forem, pois via de regra além de negar  os afetos e desejo nos afastamos de nossas verdades gauches, aquelas não muito envaidecedoras.
Pois bem, ultimamente tem me chamado atenção um comportamento, quase natural, quem é que não colecionou ou coleciona algo desde os chaveirinhos da infância até os sapatos da vida adulta das mulheres ou canetas para os homens?
Mas é muito mais comum hoje em dia do que imaginamos que o excesso pode ser tremendamente prejudicial.
Em princípio, eu acreditava  que era consequência natural  da avalanche de possibilidades e informação que as novas mídias traziam, mas hoje posso afirmar serenamente que a solidão existencial, um certo egoísmo em se dar e quem não se dá também não recebe, que faz com que as pessoas acabem se apegando às coisas,objetos,independente do valor, atribuindo à matéria afetos e valores  que não se permitem extravasar de outras formas.
Estou falando de pessoas que têm uma dificuldade extrema em se desfazer de objetos, indicando o que hoje podemos chamar de transtorno de acumulação,  que atinge entre 2% a 5% da população, tornando mais prevalente do que a esquizofrenia.
E como todo afeto tem sua origem na busca básica do prazer esse transtorno acaba sendo um prazer fantasioso, com um aspecto de controle total. Não  é raro observar em pacientes vítimas dessas mal também disfunções sexuais, o que vale advertir e refletir nesse espaço.
Ano novo, recomeço. Falamos tanto em desapego como uma vivência construtiva, mas existem pessoas que se apegam tanto a seus pertences que esses passam a ser uma extensão delas mesmas, e isso pode chegar às raias de um exagero  que pode  colocar em risco às saúdes física e mental.
Estudos mais recentes sugerem que esse distúrbio seja uma variante do transtorno compulsivo obsessivo resultante de uma desregulação da tendência adaptativa de manter recursos para sobrevivência.
Em países mais desenvolvidos, a doença já é reconhecida, inclusive existem seriados americanos que levantam a questão, inclusive exibidos aqui no Brasil pelo canal por assinatura Discovery.
Ouso levantar uma causa comum às pessoas que padeçam desse mal, como a solidão. E ela não é representa apenas não ter pessoas. É, creio eu, não saber e não se permitir amar e ser amado.