Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Os direitos perdidos

02 de fevereiro de 2015 - 09:10

Compartilhe

A tão esperada promoção finalmente chegou! A pessoa conseguiu seu primeiro cargo de chefia. Mas nem tudo são flores… As vantagens são incontestáveis, é claro, mas ela terá que se acostumar com alguns inconvenientes próprios daqueles que tem a responsabilidade de gerenciar pessoas. São os direitos que ela possuia e nem desconfiava. Agora não mais poderá exercê-los, pois a gestão eficaz de sua equipe não o permite.

O direito de ficar em cima do muro: antes o profissional nem sempre era obrigado a tomar partido ou escolher com rapidez e firmeza o melhor caminho a tomar. Dava para ficar, pelo menos por um certo tempo, passeando em cima do muro da indecisão e até não sair dele. Agora não, as decisões do gerente necessitam ser firmes e claras. As mudanças propostas pela empresa devem ser abraçadas de forma inequívoca para não causar problemas a sua aceitação pela equipe.

O direito de discordar da empresa: antes o especialista podia bradar aos quatro cantos quando não concordava com alguma decisão da empresa, desde que tomasse cuidado para algum de seus superiores não pega-lo em flagrante. Agora, como gerente, sua opinião pesa muito sobre aquilo que sua equipe pensa a respeito da organização. Precisa tomar muito cuidado para não deixar eventuais discordâncias com as políticas da empresa chegarem ao conhecimento da equipe afetando sua moral e desempenho.

O direito de se relacionar com os antigos colegas da mesma forma que antes: não dá para continuar o relacionamento com os antigos colegas, agora subordinados, da mesma forma. É claro que o gerente não irá tratá-los com indiferença ou altivez. A humildade positiva sempre é bem vinda. Mas é fundamental o gestor demonstrar que sabe distinguir os aspectos pessoais dos profissionais. A responsabilidade pelo bom ou mau andamento das atividades da equipe é exclusivamente sua. Por outro lado, o gerente deverá estar preparado para encontrar subordinados que continuam a gostar dele e respeitá-lo, mas que não mais desejam te-lo como amigo íntimo e confidente. Ser gerente fazdiferença a favor ou contra.

O direito de “esconder o jogo”: como integrante da equipe podia se dar ao luxo de, às vezes, não se abrir com os colegas dando sua opinião sobre todos os assuntos possíveis. Apesar de não ser a atitude mais correta, alguma informação de vez em quando, até poderia ser sonegada. Agora não dá. Só se o gerente quiser dar um tiro no próprio pé. A credibilidade da equipe deverá ser conquistada e o gerente perde-la por não “jogar aberto” estará pondo em risco o respeito e confiança dos subordinados.

O direito de perder a calma: aquele colega chato e inadequado estava novamente perturbando a paciência. De repente, o colaborador não conseguia segurar e pronto, perdia a cabeça, explodindo sua raiva sobre ele. Agora, isto não pode mais acontecer. O gerente jamais poderá despejar sua raiva sobre algum subordinado, mesmo que este tenha cometido uma falta grave. A equipe não irá entender essa perda de autocontrole. O gestor terá que se esforçar ao máximo para não retribuir na mesma moeda alguma agressão ou ofensa recebida de alguém da equipe. Sua resposta terá que ser firme e calma, demonstrando toda a segurança que a situação requer de um verdadeiro líder.

O direito de não fazer críticas construtivas à equipe: o colega agia de forma incorreta e o profissional não sabia como aconselhá-lo com medo de sua reação. Afinal ele era responsável por suas próprias atitudes. Como líder não dá para deixar passar a oportunidade de corrigir de forma correta os comportamentos inadequados dos subordinados. Ele não deve ficar preocupado se o liderado ficará ou não chateado. Deve dizer com assertividade o que está errado, as conseqüências negativas e o modo certo de agir. Nunca se esqueça de que o gerente não poderá fugir à obrigação de orientar e facilitar o trabalho da equipe.

O direito de não ser humilde positivamente: com os colegas o colaborador poderia ser arrogante e o dono da verdade, pois isto provavelmente não teria consequências mais sérias. Mas como líder não pode jamais esquecer o real significado da humildade positiva: o equilíbrio entre a subserviência e a arrogância. Se agir com excessiva humildade sem se posicionar na hora certa poderá perder o respeito da equipe. Se usar e abusar da soberba administrando pelo controle e comando obterá o medo e não o respeito dos subordinados.

O direito de não se comunicar com eficácia: antes o especialista podia se dar ao luxo de não ser totalmente claro em suas comunicações com os colegas, pois os impactos negativos afetariam pouco os resultados da área. Agora o gerente tem a responsabilidade total por todas as atividades e suas comunicações sejam por via oral, ou por escrito ou ainda pela postura corporal terão importância capital, pois sua objetividade e clareza irão influenciar a motivação da equipe e como consequência a qualidade dos objetivos atingidos.