Os nós do Lula III | Boqnews

Ponto de vista

31 de janeiro de 2025

Os nós do Lula III

Começo lembrando que o presidente Luiz Inácio não consegue se afastar dos “nós”, a começar por este pronome pessoal, que se contrapõe ao pronome “eles”, usado pelo PT para delimitar os territórios entre bons e maus.

Vez ou outra, Lula esquece o país de 2025, resgata os idos de ontem, para cair nas valas que separam dois Brasis, esse refrão petista do “nós e eles”.

Não consegue também livrar-se dos “nós”, o entrelaçamento de cordas e cordões, cujas extremidades passam uma pela outra, apertando-se.

Tentarei detalhar esse aperto com a ajuda do ex-ministro de Salvador Allende, Carlos Matus, autor da teoria conhecida como PES – Planejamento Estratégico Situacional.

Para melhor entendimento, a PES difere do planejamento tradicional, ao tentar explicar a realidade e formular planos de governo.

Explica Matus: a ação global de um governo resulta da análise de três balanços ou, nos termos que prefiro usar, de três “nós”: a gestão política, a gestão macroeconômica e o intercâmbio de problemas específicos.

No meio do mandato, o governo Lula III merece se submeter a um exame para avaliar os três “nós”.

Direto à pergunta: qual o balanço do Lula III no início desse terceiro ano de mandato?

O governo tem sido eficiente na estratégia de estabilizar a economia?

Tem feito boa articulação política?

E na sintonia governamental, consegue equilibrar os instrumentos de sopro, os tambores e as cordas de sua orquestra?

Tentemos algumas respostas. Na área econômica, o último buraco do cinturão de Fernando Haddad sinaliza para a desaceleração do PIB de 2025, em comparação a 2024.

A economia irá crescer apenas 2,5%, enquanto o ministro, sob a ameaça de recessão, descarta uma política para estimular setores defasados.

A inflação pode ultrapassar os 5%. Esses patamares apontam para uma estrada esburacada que pode deixar o carro do Lula III no atoleiro e fechar a vereda de 2026.

Sem economia forte, Lula vê ameaçado seu projeto de reeleição. Se perceber que pode perder, tem na manga pelo menos três nomes para tomar seu lugar: o chefe da Fazenda, Fernando Haddad; Rui Costa, ministro da Casa Civil; ou Camilo Santana, ministro da Educação.

Lula só enfrentará o pleito se os brasileiros tiverem condições de fazer suas feiras semanais lá pelos meados de 2026. Do contrário, não arriscará.

Lula está na descida. Já não é mais a figura confiante dos tempos dos dois mandatos anteriores.

Mais e mais se vê um comandante cansado da jornada, apelando para que seus ministros lhe mostrem resultados, não apenas lero-lero.

Exige, doravante, que tudo passe pelos olhos de Rui Costa, desconfiado da autonomia de alguns companheiros da Esplanada, que preferem jogar no time do Eu e não na equipe do Nós.

Como se vê, o nó da economia não está ajustado.

O cinturão da política está com o pino fora do buraco.

E a orquestração do ministério padece da falta de unidade.

E a área social? Onde são aplicados os bilhões destinados à área social?

No Bolsa Família, no Minha Casa, Minha Vida, no Pé-de-Meia, mas todos esses programas já estão incorporados à rotina dos necessitados.

Não são, portanto, uma concessão do governo Lula.

O fato é que o balanço não é positivo, principalmente quando o presidente, vestido com o manto do PT, afirma que irá realizar o maior governo de todos os tempos.

Nem ele acredita mais no dito.

O Brasil abriria as portas de seu ciclo de ouro, essa mesma promessa que Trump promete para os EUA, com seu MAGA (Make America Great Again).

Para fechar, uma historinha sobre o nó. Alexandre Magno é o protagonista.

Quem conseguisse desatar o nó que unia o jugo (peça de madeira usada para atrelar os bois à carroça) à lança do carro de Górdio, rei da Frígia, dominaria a Ásia.

Muitos tentaram. Não conseguiram.

Foram a Alexandre. Ele tinha duas opções: desatar o nó ou cortá-lo com a espada.

Optou pela via mais rápida e certeira com um golpe. Sabia que perderia tempo tentando desatá-lo. E assim o nó górdio entrou para a história.

Se o guerreiro fosse Lula, estaria ele, ainda hoje, tentando desatar o nó.

 

Gaudêncio Torquato é escritor, jornalista, professor titular da USP e consultor político

 

Gaudêncio Torquato
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