Os velhos morreram de overdose | Boqnews

Ponto de vista

24 de outubro de 2013

Os velhos morreram de overdose

Não acredito na expressão Terceira Idade. Não utilizo,
por desconfiar da ilusão da má fé, os termos Melhor Idade. Idosos, para mim, é
somente mais uma arma politicamente correta, capaz de esconder os problemas
reais e maquiar a velhice.

A vida nos envelhece. Ficamos velhos. Mas envelhecer está
além dos muros da redundância biológica. Conheço pessoas com mais de 70 anos
que tem uma vida mais agitada do que a minha. E conheço gente que se julga
adulta por conta da carteira de identidade, mas que pensa e se comporta como se
a Idade Média tivesse acabado ontem.

Tornar-se velho é mais do que tempo maior para
recuperação de atividade física. É mais do que falta de fôlego para fazer o que
fazíamos na semana passada. A velhice irreversível ataca mentalidade, valores, perspectivas
de mundo. A velhice se prolifera pelas palavras e atitudes que indicam o quanto
podemos nos agarrar em conceitos antigos e obsoletos.

Chico Buarque, Gilberto Gil, Djavan e Caetano Veloso
envelheceram. Ficaram rígidos. Rasgaram parte do passado de lutas, residente em
suas criações artísticas. Passaram a brigar pelas migalhas do artigo 20 do
Código Civil, rascunho de censura dentro de uma legislação tão frankstein
quanto seus argumentos publicados em jornais ou ditos na TV pela porta-voz
Paula Lavigne.

Talvez influenciados pelo rei da música e do atraso, e
autor desta letra mal escrita, o grupo de artistas provocou a distorção de um
problema que inviabiliza a construção da História deste país. Mais do que
discutir a privacidade de gente famosa, o artigo 20 pode assassinar o trabalho
de historiadores, intelectuais e jornalistas. Pode enterrar qualquer caminho
que nos permita se aproximar da veracidade dos fatos, ainda que sempre tenhamos
versões e relatos.

É
impossível não entrar na vida privada de alguém para conhecermos a
personalidade pública. A vida privada é um dos principais indicativos para que
possamos compreender os atos públicos, quando não nasce deles. O personagem dos
holofotes é composto pelo que se foi e é dentro das torres do castelo. E, neste
sentido, vida privada e fofocas são termos incompatíveis.

Dentro
deste caldeirão, a turma do Procure Saber – a patota do rei Roberto, acostumado
com os agrados de juízes, canais de TV e jornalistas – tenta minimizar as
razões financeiras de seus atos. É parte do pacote de construção da imagem de
vítimas.

A
encenação esconde o que já acontece como rotina no Brasil. Produtores e
diretores de cinema, além de escritores e jornalistas, são obrigados a pedir
autorização para a realização de filmes e livros. Esta autorização é pedida a
herdeiros; em muitos casos, coletores de dinheiro do parente falecido há
décadas, com quem mal se relacionaram em vida e hoje defendem com unhas e
dentes, como corretores na Bolsa de Valores.
 

É
claro que o jornalismo e sua prima biografia abrigam preguiçosos e maledicentes.
Para isso, existe legislação que prevê punições para calúnia, injúria e
difamação. Há no Brasil, inclusive, uma indústria de indenizações,
especializadas em casos de danos morais e materiais.

A
cantora Angela Ro Ro, exemplo de quem foi massacrada pela mídia diversas vezes
por conta dos escorregões privados, discordou de seus amiguinhos da MPB.
Coerente, não se escondeu e foi direta: “É para isso que existem os escritórios
de advocacia”.
 

Parafraseando Cazuza, que – por sinal – ganhou biografia
e filme bajulatórios, alguns dos meus heróis morreram de overdose. Overdose de
ganância e intolerância. Ironicamente, esta morte simbólica é pública e,
portanto, estará na biografia deles, com ou sem autorização. 

Da Redação
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