Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Pega na mentira

13 de novembro de 2013 - 19:28

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A ideia de escrever sobre o tema foi por causa de uma mensagem que eu recebi e que traduz um problema nessa época em que se exige sucesso, performance e aparência irretocável:  – Márcia, estou namorando há seis meses e tudo funciona bem, mas ele tem um defeito que eu percebia e passava batido. Agora me incomoda, mente muito, em pequenas coisas, mas todo dia eu o pego em mentirinhas bobas. Estou ficando decepcionada e não sei o que faço, pois eu gosto dele.
Partindo do princípio de que até mesmo os vírus, organismos tão simples, têm estratégias para enganar os sistemas imunológicos, chega-se a conclusão que a natureza está repleta de enganos. As mentiras de um modo torto nos dão a ideia de força ao desenvolvimento emocional e social. Muitas das percepções que temos do outro e do mundo estão mascaradas nas histórias que contamos e acreditamos. Os seres humanos são narradores compulsivos e quem conta um conto…
Aprendemos desde cedo as vantagens da mentira. Ainda crianças, aprendemos a dizer que a mãe não está em casa, quando ela quer evitar atender ao telefone, a dor de barriga quando não quer ir à escola. 
E a seleção natural da raça tornou esse comportamento quase comum, mas não devemos nos enganar, pois o caminho do mentiroso contumaz é árduo. A pior mentira é a primeira e a sequência de mentiras para justificá-la faz com que se perca o rumo da verdadeira história e muitas vezes da nossa própria, acreditando ser o que não somos.
Mentir pode ser um ato consciente ou inconsciente, verbal ou não verbal, declarado ou não declarado. E, em cada circunstância, merece uma atenção, uma crítica e um olhar diferente.
Mentirosos contumazes, de dinâmica psíquica rica em conflitos e complexos, representam personagens tal como fazem os atores, e refletem aquilo que gostariam de ser. Ao  perder o controle  sobre o impulso de mentir, o personagem criado suplanta o ego.
 É muito comum vermos na intimidade do consultório muitas pessoas com dores d’alma por não estarem vivendo o que lhes dá prazer, quer na vida pessoal, profissional e até mesmo na amorosa. Chega um momento em que ao perder o controle, deságua num comportamento transtornado, para se ver livre das amarras que uma  mentira aprisiona.
Nos relacionamentos isso se torna mais grave, pois se espera que na intimidade de um casal se extrapole os corpos nus e que a sinceridade se apresente. Pessoas que mentem costumeiramente não inspiram confiança e se tornam muito desagradáveis, pois as mentiras acabam ficando evidentes e isso os torna vulneráveis.
A grande perda que a mentira pode provocar é a de falsear a vida, em busca da ilusão de ser perfeito e consequentemente aceito, não deixando espaço para admitir a própria maneira de ver, sentir, reagir, na verdade uma grande prisão.