Ponto de vista
Pelo caminho mais fácil
Repetindo um procedimento recorrente adotado pela maioria das administrações públicas brasileiras e, ao mesmo tempo, contradizendo promessa de campanha do presidente Bolsonaro de não elevar a carga tributária durante os quatro anos de seu mandato, o ministro da Economia, Paulo Guedes, não hesitou em promover aumento de impostos sob a premissa de utilizar os recursos excedentes para custear os gastos provenientes da implementação do Auxílio Brasil, programa que deve substituir o Bolsa Família e que permitirá atender um maior número de pessoas com benefício estimado em R$ 300,00.
Para tanto, desde o início da semana já passaram a valer as novas alíquotas do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), aplicadas sobre o crédito para empresas e famílias.
Para as pessoas físicas a alíquota passou de 3% para 4,08% ao ano, enquanto para as juídicas de 1,5% para 2,04%, índices que serão cobrados até o dia 31 de dezembro e incidirão sobre operações de crédito, câmbio, seguro ou relativas a títulos e valores mobiliários. Mais uma vez o Governo, ao invés de adequar o orçamento aos seus propósitos cortando mordomias e despesas, faz uso da via mais fácil para promover aumento de receitas.
A medida, além de dificultar o acesso aos empréstimos no mercado financeiro, revela-se, no atual momento, inadequada diante das dificuldades econômicas vividas por grande parte da população.
A decisão afasta mais uma vez a oportunidade de o País fortalecer ainda mais o mercado consumidor interno e, por consequência, consolidar novos patamares para o crescimento da produção de bens e serviços.
Principalmente quando se sabe que as famílias brasileiras estão dispostas a consumir mais, desde que seja dada sequência às políticas de incentivo fiscal, aumento na renda dos trabalhadores, acesso ao crédito e de estabilidade no emprego.
Nesse sentido, a tão propalada reforma tributária deveria compor, mais do que nunca, a pauta de prioridades do Governo e Congresso Nacional, de forma a corrigir distorções e estabelecer diretrizes perenes para o futuro.
Negligenciadas pelo atual e governos anteriores, as propostas dirigidas à mudança nos pesos e medidas utilizadas para o estabelecimento de normas tributárias mais justas e coerentes com a realidade social brasileira continuam apenas no campo retórico.
É necessário cobrar maior comprometimento da classe política na observância dessa questão, fundamental para dotar o País das condições ideais para o desenvolvimento e consolidação de um mercado interno sólido, capaz de atender as demandas de consumo e, sobretudo, contribuir para o fim da miserabilidade que ainda afeta boa parte da população.

Humberto Challoub é jornalista, diretor de redação do jornal Boqnews e do Grupo Enfoque de Comunicação.