Arte de Conviver
Laercio Garrido

Professor universitário e escritor.

Perdão

07 de abril de 2015 - 08:00

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Por que as pessoas têm dificuldades para perdoar seus semelhantes? Muitos especialistas no tema afirmam que o perdão não é uma característica natural do ser humano. Além disso, a grande inimiga do perdão, a vingança, parece ser um instinto profundamente arraigado em nossa natureza. Infelizmente desde há muito tempo, a lógica do princípio “olho por olho e dente por dente” ainda é muito poderosa para aqueles que valorizam a supremacia da razão sobre a emoção.Gandhi afirmou que se todos seguissem a máxima do olho por olho, o mundo ficaria cego.

As pessoas, no dia-a-dia, vivenciam muitas situações onde se sentem ofendidas, atacadas pelos outros e tem que escolher entre o perdão e os sentimentos negativos da raiva, ressentimento e vingança. Às vezes, é muito fácil escolher o caminho certo: o líder que responde “atravessado” por estar num dia ruim, o motorista que esbraveja palavrões pela loucura do trânsito, o “encontrão” de um apressado sem as devidas desculpas. Outras vezes, o problema é muito mais sério: o colega de trabalho que tenta prejudicá-lo para ganhar a promoção, a mentira de “pernas curtas” do melhor amigo para levar vantagem, a infidelidade da namorada que escorrega na primeira oportunidade, o filho que rouba as chaves do carro para passear com os amigos.

É bastante comum a frase “perdoar, sim; esquecer, nunca”. Como é possível perdoar, sem esquecer? Pode-se arrancar o sentimento de vingança que contamina a alma, libertando-se por meio do perdão. Mas isso não significa que os motivos que levaram ao perdão foram esquecidos. O indivíduo se coloca no lugar do outro para tentar compreender e aceitar as razões da ofensa, dando a ele uma segunda chance.

Além disso, se fosse possível esquecer totalmente o ocorrido a pessoa estaria jogando pela janela as experiências que a ajudaria no futuro a enfrentar situações semelhantes com mais coragem e sabedoria.

Outro aspecto importante na questão do perdão são as atitudes de perdoar e pedir perdão. O ser humano precisa praticar as duas com frequência. O que é mais difícil? O que vem primeiro? Será que aprender a perdoar torna menos difícil o ato de pedir perdão ou este é que facilita a atitude de perdoar? A verdadeira resposta pode surpreender: depende.

Depende de vários fatores que influenciam diretamente a convivência, como o grau da ofensa, as conseqüências negativas da ofensa para o ofendido, as personalidades dos envolvidos, o tipo de relacionamento pessoal ou profissional, a intimidade entre o ofensor e o ofendido, entre outros.

As dificuldades para perdoar e pedir perdão são enormes. Perdoar exige que o ser humano se liberte dos sentimentos negativos de rancor e vingança que alimentam seu espírito, trazendo muitas vezes o benefício da consolação pela ofensa recebida. Como resistir à possibilidade de se vingar, principalmente se o autor jogar fora os princípios éticos pautando-se simplesmente pela segurança de não ser punido? Como conseguir o desprendimento de perdoar alguém que nunca irá se arrepender do mal que causou?

Pedir perdão, por sua vez, não é nada fácil. Se não se acha culpada, porque a pessoa irá tomar a iniciativa de se desculpar? Por que se humilhar para quem não merece? Como conviver com a vergonha de ter se rebaixado, se não é o maior culpado?

Uma questão relevante precisa ser destacada para reflexão. É justo perdoar alguém que não se arrependeu da falta cometida? Muitos estudiosos afirmam com todas as letras que o perdão precisa ser precedido do arrependimento. Este é um princípio cristão muito forte e difundido. Mas, por que a atitude de quem resolve perdoar seu ofensor, independente do seu arrependimento, é errada? A justiça do perdão pode depender exclusivamente da intenção do ofendido, que resolve se livrar do peso do ódio, se reconciliando com o ofensor.

Talvez um dos sentimentos mais difíceis de suportar, de carregar pela vida, seja a culpa. A origem da culpa “imortal”, aquela não vai embora de jeito nenhum se encontra na incapacidade da pessoa perdoar a si própria. Às vezes, ela se sente culpada, mas na realidade não é. Mesmo sendo perdoada pelo pretenso ofendido, ela não consegue se perdoar.
O que fazer se já não é possível pedir perdão pela ausência permanente do ofensor? Neste caso, é fundamental que a pessoa se empenhe em perdoar a si mesma, pedindo ajuda espiritual e/ou psicológica a profissionais capacitados.