Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Ponto de Fuga

Você pode sentar na frente do seu PC e do seu videogame e jogar o que for. Mas o que aquele jogo significa para você? Ele te leva a algum lugar?

09 de maio de 2018 - 13:26

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Aviso, esse texto tem cunho pessoal (envolvendo games, lógico), com palavras “fortes” e uma roupagem diferente do que escrevo geralmente.

Poderia falar estritamente sobre games aqui, dar a resenha de um jogo qualquer, falar sobre a aproximação da E3, do trailer do Red Dead Redemption 2 e tudo mais…mas sendo sincero com vocês leitores, não é a “hype” que estou. 2018 iniciou e sabe quando você se vê numa bola de neve de problemas e situações complicadas? Me vejo preso em algumas situações e isso tem mudado um pouco minha forma de pensar e agir. O que ocorre de rotina é a chegada em casa, sentar na cadeira em frente à minha “estação”, ligar um dos videogames e torcer para tudo que ronda minha mente sumir. Essa é a minha forma de “fugir” do mundo. Ou me esconder dele. Até esquecê-lo.

Você tem um “ponto de fuga”? Se a resposta é “não”, você apenas não sabe. Livros, chocolate, assistir a novela das 21h, Netflix e suas inúmeras maratonas, música, sexo, baladas, bebida, entre trilhões de outros. Sempre existe algo que você apela para dar o equilíbrio da pressão social. Quanto menos você admitir, mais descontrole terá sobre ele, isso é de lei. O meu são os jogos. Lá não existem relações conturbadas, palavras não-ditas, não tem essa de “invisível”: você é o protagonista. Ali ninguém analisa muito o que você faz ou deixa de fazer. No máximo você perde, algo normal para quem está acostumado a sobreviver no “mundo real”.

Sempre existe o que as pessoas veem e o que realmente é no seu interior, isso que forma a dualidade que vivemos atualmente

Desde que o ano começou, usei deste artifício para não explodir. A melhor parte não é o quanto os jogos ajudam não apenas a “fugir”, mas também a aprender mais sobre o que está aqui dentro. O primeiro game que joguei em 2018 foi Persona 5, que não esperava nada e nem estava tão a fim de manter. Aí, fugindo do mundo, com o que me deparo? Suicídio. Depressão de jovens. Abusos (físicos e psicológicos). Debates sobre o que pode ser considerado crime ou não e se o ato maléfico do próximo justificaria que passasse da “linha”. O ato de “matar” é discutível? Quando você se depara com um nível absurdo de profundidade, ou larga de mão ou mergulha. E tive em minhas mãos uma das maiores experiências em videogame que já vi em ~cof cof~ 28 anos de vida.

 

Além disso, frisavam muito o que podemos enfrentar tendo amigos ou companheiros ao lado. Coisas que nem todos nós temos na vida real, não é mesmo? Não me entendam errado leitores, não sou o ermitão que vive isolado na frente dos games (não na maioria do tempo, vamos ser sinceros!). Tenho algo parecido com vida social, relacionamento, emprego, hobbies que vão além de jogar…mas vocês entendem quando digo que existem formas de solidão que podem te afetar mesmo no meio de uma multidão? Quando se depara com esses problemas e algo te escancara, você enfrenta? Eu continuei a mergulhar. Aí chegou Xenoblade Chronicles 2 e Ni no Kuni II.

 

Um o protagonista morre na primeira hora de jogo. Com o avançar da história, você vê amigos dando a vida para conseguirem atingir sua missão. Personagens fortes com histórias que se desenrolam lentamente, dando a chance de ver que todos possuem suas dores e motivações. Quando digo todos, incluo vilões e personagens secundários também. Em Xenoblade 2 isso é tão bem trabalhado que enfrentar certos personagens se torna difícil, não pela própria dificuldade do jogo, mas por saber o que ele sofreu.

Xenoblade Chronicles 2 conta a história de Rex e como ele “morre” no início de sua jornada e onde isso o levará

 

No outro piora. Você vê um motim, no qual o conselheiro do rei assassina seu pai e o príncipe é o próximo da lista. Fugindo do castelo e tendo de fazer mais sacrifícios, você vê a força da motivação e como ela não move apenas os seus ideais, mas também o resto daquele mundo. A amizade dos personagens cresce a cada momento e aqueles instantes se tornam algo difícil de desapegar quando finaliza o game. Posso dizer que com ambos aprendi muita coisa. A melhor parte que não é sobre o mundo, sobre as pessoas ou o que as move. É o auto-conhecimento. Vendo certos personagens lidando com dores diferentes, você passa a enxergar a forma como lida com a sua. Nada a ver com jogos, mas no seriado Flash (Warner Channel) existe um episódio da quarta temporada que fala sobre formas de enfrentar o que sente. Com os jogos é o mesmo. Podemos não sentir apenas coisas boas, mas como trabalhar isso?

 

Ni no Kuni II traz a história de Evan e como ele usa toda decepção que passa como motivação para atingir o sucesso

 

Tudo que nos forma como seres humanos, razão e emoção, é algo que não compreendemos plenamente até hoje. Tem coisas que não conversamos, que não deixamos as pessoas ao redor saber que nos martelam, cicatrizes que não expomos, enfim, tanta coisa que estão abaixo da “superfície” (aquilo que deixamos que vejam) e aí? Às vezes nosso maior problema somos nós mesmos. Não são amigos, namorada/namorado, conhecidos, família que vai pegar na nossa mão e nos fazer seguir em frente. Somos apenas nós. E para onde você “foge”? Esse lugar para onde vai, te ajuda a levantar após sua queda? Ou você continua no chão?

 

Depois desses jogos que comentei, ainda veio Pokémon Ultra Moon, que mostra certos personagens do jogo anterior em perspectivas diferentes e fazem compreender que algumas vezes não há “vilão”. Apenas histórias não-contadas. God of War me mostrou que nosso passado pode estar nos sussurrando, mas o que “grita” é o nosso presente. Sempre seguindo em frente. Um passo de cada vez. Mas a grande questão é o que falta para darmos esse “passo”.

 

Kratos, em God of War, segue em frente mesmo com fantasmas do passado lhe ferindo em suas cicatrizes

 

Existem buracos nas nossas vidas. Na minha, na sua, de seus conhecidos, amigos, família etc. Claramente, o mundo não está sabendo lidar com isso. Pode ser a geração, a cultura recente que vivemos ou milhões de outros fatores. Eu encontrei algo para me ajudar, o que não faz NENHUM problema sumir enquanto não me mover. Mas não posso negar que tenho alguns suportes. Filmes, livros, séries, desenhos animados e os jogos, principalmente este último, são o que me fazem sair um pouco do que rodeia a mente e me permite observar com clareza o que fazer ou não. Até mesmo a admitir que pode existir problemas que não existem soluções. Devo sentar e chorar? Ou seguir?

 

Não estou dizendo que deve sentar e jogar, ignorando tudo que existe e o que está passando. Sente, jogue e use aquilo que está na sua frente para te ajudar. A vida nem sempre vai te dar uma mão. Para alguns, ela não dá nem às vezes. Se isso acontece, levante com as suas próprias e use o que tem nelas como suporte para continuar seguindo. Como diz uma banda de rap nacional (não muito a minha praia, mas temos de conhecer de tudo não?), “a floresta não sangra por perder uma ou outra folha”. O mundo não para. Esteja sozinho ou não. Com problemas ou não. Com o “controle” na mão ou sem ele. No meu caso, eu chego em casa, sento na cadeira e pego o controle para mim. Esse é o significado que os jogos tem na minha vida. O “ponto de fuga”, não para fugir do problema. É para fugir direto para a solução. Do que você foge não é o importante. Para onde você vai que é, certo? Você sabe onde está indo?