Estação X
Diego Corumba

Jornalista especializado em games

Protagonismo Negro nos Games

Você já questionou quantos games representam o público negro? No Século XXI, ainda temos dificuldade em ver esse cenário

26 de fevereiro de 2018 - 12:41

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Ontem assisti ao filme do Pantera Negra, da Marvel Studios, o que não é o foco da coluna, mas é um excelente longa e que mostra uma das melhores abordagens sobre negros que já vi em toda a minha vida. Fora isso, reparei uma tendência do mercado de abordar o tema, com seriados como Raio Negro (Warner Bros/Netflix), Star Trek Discovery (também do Netflix), a própria franquia Star Wars, entre outros que começaram a inserir personagens negros como protagonistas de suas histórias, não “mais um” alívio cômico ou coadjuvantes. Porém, quando olho para os games, vejo outra realidade.

Pare por algum tempo e procure pelos melhores jogos dos últimos 10 anos. 20, talvez. Quem sabe mais? Não há jogos com protagonistas negros. Citando de 2016 a 2018; temos Horizon Zero Dawn (ruiva, branca), The Legend of Zelda (Link, Zelda…), Persona 5 (todos são japoneses), Wolfenstein II: The New Colossus, Shadow of the Colossus, Resident Evil VII, Star Wars Battlefront II…posso continuar o dia inteiro aqui, mas acredito que já entendeu o ponto, certo? Errado. Há jogos “mainstream” com protagonismo negro. Mafia III. GTA (vários). Agora sim acredito que tenha compreendido a dimensão do problema.

Mafia III foi lançado para ps4 e xbox one em 2015

Antes de tudo, não podemos esquecer de lembrar o lado positivo disso tudo. Games da linha NBA sempre ressaltaram a realidade e importância deles no esporte, sendo que não há games da franquia com atletas brancos nas capas até o dia de hoje. Diferente de jogos de futebol, onde também sempre foram tão bons ou melhores que os demais e vemos em FIFA e Pro Evolution Soccer uma importância delegada a quem possui mais dinheiro, diga-se de passagem, os times europeus. E não precisa ser um gênio para saber quem é valorizado na Europa.

Gostaria de saber como, em pleno Século XXI, isso ainda não entrou em discussão e debate. Precisaram de quase 20 anos de filmes de super-heróis para finalmente darem voz às mulheres e aos negros como protagonistas de suas próprias histórias. Tardou, mas chegou. Quantos anos existem os games? Datando o mais antigo, o Pong, temos exatos 46 anos de consoles de mesa. Jogos com protagonismo feminino existem, a voz da consciência neste âmbito falou mais alto e tivemos e ainda temos excelentes games no meio. Porém, o que há com toda uma realidade mundial ainda é um mistério.

Sendo sincero, isso é culpa tanto da indústria quanto de quem consome, nós. A série Halo, exclusiva do Xbox, tentou no quinto jogo dividir os holofotes entre Master Chief (apesar de nunca ter aparecido o rosto, já foi mostrado de costas sem armadura e é branco) com o spartan Locke, um negro com personalidade forte e com um enredo muito bem fundamentado. Porém, após várias reclamações sobre essa “divisão”, já anunciaram que os games voltarão a contar com o protagonista principal da franquia sem Locke. Outros, quando anunciam mudanças neste sentido, enfrentam represália e retornam para garantir o lucro da produção. Alguns permitem que você personalize seu herói, mas nisso o personagem acaba “generalizado” demais, sem algum elemento forte que o represente.

Locke é o primeiro humano que pode controlar além do master chief desde o início da franquia halo

Acredito que já passou (e muito) da hora de revermos como consumimos este mercado e o que buscamos nele. Vivo dizendo, mas jogos são materiais para propagação de cultura do mesmo modo como livros, filmes, música etc. Então qual a razão de ser o único a não aderir a este gigantesco público? Segundo o IBGE em 2014, apenas no Brasil, temos 53,6% da população nacional negra. Mais da metade. Em outros países, como Estados Unidos, é menor, representam um pouco mais de 13%. Porém, não podemos ignorar que é uma parcela significativa e que precisa se ver protagonizando suas próprias histórias. Quantas crianças jogam estes games, que a cada vez mais bate recordes de vendas, que desejariam se ver vencendo vilões e salvando aquela realidade?

Há tentativas, por exemplo, com o jogo brasileiro Dandara. Inspirado pela guerreira que, além de ser parceira de Zumbi dos Palmares, auxiliou no resgate de vários escravos na época colonial brasileira.  Óbvio, o game se passa com um enredo e abordagem fantasiosa, porém é um ponto positivo da Long Hat House de criar um indie valorizando isso. Também temos a franquia The Walking Dead da Telltale, que apesar de ser aclamado e premiado, o estilo não é o mais popular que existe. Claro, isso não tira o mérito do jogo, mas limita bastante o seu público. Como estes existem poucos e não são muito visados por quem consome este mercado. Um colega de trabalho até comentou a seguinte frase “existem mais games com protagonista raposa (bichinhos no geral) do que com negros”. E não é verdade?

Dandara é produzido pelo estúdio brasileiro Long Hat House para celulares, pc e consoles

Acredito que, com a ascensão do tema e das discussões que passaremos a abordar com o foco da mídia cultural voltada ao protagonismo e relevância dos negros, poderemos ter algo discutido no gênero. Complicado que algumas entrarão nessa “onda” apenas pelo apelo cultural. Espero que outras entendam o problema e realmente trabalhem para melhor representar essa gigantesca parcela que temos no mundo. Para pessoas e gerações que foram alvos de preconceito, críticas, escravidão entre vários outros fatores, acho mais do que digno entregarmos a eles a importância que sempre tiveram em nossa sociedade e em nossas vidas.

As crianças, jovens e adultos que jogam, fora o próprio mercado, precisam ver isso. Claro, nem todos nascem para ser protagonistas e heróis. Sei disso tanto quanto vocês. Mas não ver “nenhum” é complicado. Para mim. Para os próprios negros, pode chegar a ser doloroso. Com o centro de discussões voltados a isso, podemos finalmente chegar ao fim dessa problemática. Parar de delegar essas posições em jogos com temática “crime” e começar a trata-los como pessoas como nós, protagonistas das suas histórias e que tem tanto poder para mudar a realidade quanto temos, já seria um ótimo começo. E estou ansioso para que comece logo.

Como me encontrar na rede:

PlayStation: CorumbaDS

Xbox One: PlumpDIEGODS

Nintendo Switch: SW-3514-0697-9012