Ponto de vista
Quando a cidade desiste de alguém
Alessandro Lopes
Recentemente, uma amiga, Lucia Bellocchio, apresentou-me uma inquietação que ganhou forma no livro Ciudades Azules, do qual é coautora.
A obra observa a cidade pela experiência de pessoas autistas e revela algo que quase nunca percebemos: a vida urbana pode ser, para outra pessoa, ruído, excesso, desorientação e medo.
Eu vinha pesquisando sobre inclusão nas cidades, pensando nas crianças, nos idosos e nas diferentes formas de experimentar o espaço, quando encontrei um estudo da OCDE sobre crescimento inclusivo.
E surgiu a pergunta: para quem temos desenhado nossas cidades?
Projetamos parte delas para um ser humano imaginário: adulto, saudável, autônomo, rápido, atento. Esse cidadão padrão nunca existiu.
Uma criança vê a cidade de outra altura. Um idoso mede trezentos metros de outra maneira. Uma pessoa autista pode sentir como agressivo aquilo que, para nós, é apenas movimentado.
Não existe uma única escala humana; existem corpos, tempos e sentidos diferentes.
Quando entendemos isso, a cidade muda. Uma calçada não é apenas pavimentação, é autonomia. Um banco não é mobiliário, é a possibilidade de continuar.
A exclusão raramente diz “você não pode entrar”. Ela aparece numa escada, numa travessia rápida demais, num ruído permanente ou num lugar sem onde sentar.
Pequenos obstáculos se acumulam até que alguém deixa de estar ali.
Uma boa cidade não é aquela em que o mais forte chega mais rápido. É aquela em que o mais vulnerável não precisa pedir licença para chegar. Talvez a pergunta decisiva não seja quantas pessoas conseguem entrar, mas quantas ainda estamos fazendo desistir.
Falamos em cidades inteligentes e inteligência artificial, mas uma cidade capaz de prever congestionamentos e incapaz de perceber quem desapareceu de suas ruas ainda sabe pouco sobre si mesma.
Talvez a verdadeira inteligência urbana seja perceber o outro.
Todos nós envelheceremos. Um dia atravessaremos mais devagar, procuraremos o banco que hoje julgamos desnecessário, desejaremos a sombra da árvore que não plantamos.
Talvez então compreendamos que projetar inclusão nunca foi benevolência. É um pacto entre gerações.
Depois de séculos construindo cidades para produzir, circular e competir, talvez tenha chegado o momento de construirmos cidades para permanecer, envelhecer, ser diferente e pertencer.
Uma boa cidade não é aquela em que o mais forte chega mais rápido. É aquela em que o mais vulnerável não precisa pedir licença para chegar.
Talvez a pergunta decisiva não seja quantas pessoas conseguem entrar, mas quantas ainda estamos fazendo desistir.
Quando alguém renuncia à cidade por não conseguir atravessar ou compreender aquilo que construímos, talvez o problema nunca tenha estado nessa pessoa.
Talvez estivesse no desenho.