Ponto de vista
Quando a universidade escuta
Daniela Tafner
Ela não estava apresentando o trabalho. Estava ali, assistindo atentamente, sem conseguir controlar as lágrimas que teimavam em cair.
A cena aconteceu enquanto uma acadêmica de enfermagem apresentava sua pesquisa sobre a doença falciforme e o racismo ainda presente na forma como a doença é compreendida e tratada, durante uma Mostra de Pesquisa, Ensino e Extensão universitária.
Ao término da apresentação, enquanto enxugava as lágrimas, a mãe e professora explicou o motivo de sua emoção.
Falou da própria filha, uma menina negra que, segundo seu relato, convive diariamente com preconceitos, julgamentos e situações que insistem em lembrá-la de que a cor da pele ainda influencia a forma como é vista por parte da sociedade.
Pouco antes, eu havia assistido a outra apresentação. O tema era educação, democracia e questões étnico-raciais.
O trabalho abordava como ainda é limitada a produção que relaciona a educação à sua responsabilidade na construção da democracia para pessoas negras e pardas.
Duas pesquisas distintas, conduzidas por caminhos diferentes, mas atravessadas por uma mesma questão: a experiência da população negra no Brasil.
Naquele instante, percebi que a cena diante de mim talvez representasse uma das funções mais nobres da universidade. Não apenas ensinar, pesquisar ou produzir conhecimento, mas escutar.
Quando pesquisadores investigam racismo, saúde da população negra, relações étnico-raciais ou doenças como a falciforme, não estão tratando de temas restritos a um grupo específico. Estão discutindo a própria sociedade brasileira.
A emoção daquela mãe transformou uma apresentação científica em algo maior.
De um lado, estavam os dados, os conceitos e as evidências produzidas pela pesquisa.
Do outro, uma história de vida marcada por experiências concretas de discriminação.
Entre os dois, a universidade cumprindo seu papel de criar pontes entre o conhecimento e a realidade.
Em tempos em que as universidades são frequentemente cobradas por sua utilidade prática e pela capacidade de desenvolver tecnologias, talvez valha lembrar que sua função não se limita à formação de profissionais ou à produção de inovação.
A universidade também é espaço de debate público, construção da cidadania e, sobretudo, elaboração das perguntas que a sociedade ainda reluta em enfrentar.
Quando pesquisadores investigam racismo, saúde da população negra, relações étnico-raciais ou doenças como a falciforme, não estão tratando de temas restritos a um grupo específico. Estão discutindo a própria sociedade brasileira.
Talvez uma das maiores armadilhas seja continuar tratando essas pautas como assuntos de “minorias”.
A população negra não é minoria no Brasil. Ao contrário, representa a maior parcela da população do país.
Quando utilizamos essa expressão, não estamos falando de números, mas de relações históricas de poder, de acesso desigual a direitos e de espaços que ainda permanecem fechados para muitos.
A pesquisadora que apresentou o trabalho sobre educação e questões étnico-raciais relatou ser a única aluna parda do mestrado.
Sua pesquisa reforçava essa realidade ao mostrar que os espaços de educação estão longe de refletir as condições existentes. A presença de estudantes negros e pardos tem tensionado historicamente uma educação sustentada por valores eurocêntricos.
A maior riqueza da universidade talvez não esteja apenas nas pesquisas apresentadas. Está também na capacidade de fazer com que uma mãe se sinta vista, ouvida e representada.
Cada pesquisa apresentada, cada projeto de extensão realizado e cada discussão promovida dentro das universidades possui um significado que ultrapassa os limites da formação acadêmica.
São oportunidades de tornar visíveis histórias que por muito tempo foram silenciadas e transformar experiências individuais em reflexão coletiva.
A fala daquela mãe foi um lembrete poderoso disso. O racismo não é uma abstração teórica. Não existe apenas nos livros, nos artigos científicos ou nos indicadores.
Ele aparece nos olhares, nos estigmas, nas oportunidades negadas e nas barreiras que atravessam a vida cotidiana de milhões de pessoas negras e pardas.
Talvez seja justamente por isso que as universidades tenham um papel essencial na formação e na transformação desta realidade cruel e persistente.
Não porque se trate de um tema extraordinário, mas porque ele ainda faz parte da realidade do nosso país.
A maior riqueza da universidade talvez não esteja apenas nas pesquisas apresentadas. Está também na capacidade de fazer com que uma mãe se sinta vista, ouvida e representada.