A raiva vem do sofá | Boqnews

Ponto de vista

14 de novembro de 2014

A raiva vem do sofá

Ao entrar em sala de aula, um aluno se aproximou e me perguntou:

— Professor, por que a mídia está em silêncio?

— Em silêncio sobre o quê?

— Sobre a volta dos militares ao poder. O movimento está aí nas ruas. A imprensa está escondendo tudo. Mas o Facebook mostra o que está acontecendo.

Fiquei em silêncio. Não sou daqueles que demonizam as redes sociais. A utilidade tecnológica depende de nós. Os erros e acertos derivam do comportamento e das contradições do humano. O Facebook não criou voz alguma, apenas deu espaço àquelas que existiam por aí, perdidas em pontos de ônibus, mesas de boteco e salas de jantar.

Com as eleições esfriando e todos os atores se acomodando em seus papéis tradicionais do teatro político, me causa estranheza ver como muitos eleitores incorporaram os delírios ficcionais da Internet, evidentemente reforçados pela própria visão de mundo. Lemos, vemos e reproduzimos aquilo que nos interessa e reitera nossa perspectiva.

Na Sociedade do Espetáculo, valem o drama, o exagero, o sensacional. Prevalece a construção da própria imagem, a partir de retalhos de outros e baseada em senso comum. A superficialidade nascida no maniqueísmo é ingrediente essencial para a revolta que se alimenta da rede social, uma valentia que se multiplica atrás do teclado ou recostada no sofá da sala.

Nada contra compreender o mundo como a novela das nove. A democracia – apesar de relegada em segundo plano por conveniência – é a permissão para que os saudosos do regime militar o invoquem, ainda que não o conheçam, tenham vivido ou ouvido falar dele.

A desinformação – fragmentada em links não acessados e em comentários de 140 caracteres – distorce a dimensão dos fatos ao nível da fábula. Acredita-se que manifestações de quarteirão sejam capazes de modificar o estado de coisas na política. É fé hipócrita que permite encarar como fluxo migratório meia dúzia de pessoas que passam férias na Flórida, compradas com o dinheiro ganho por estas bandas, inclusive neste governo e no anterior, do mesmo partido.

As teorias conspiratórias assassinam o contexto, colocam abaixo as lições que a História poderia nos fornecer. Crer na possibilidade de um golpe, seja do PT, seja dos militares, é tão risível quanto considerar que os brasileiros em Miami são refugiados políticos, regados a champanhe e camarão.

O modelo político atual, simbolizado por 28 partidos no Congresso Nacional em 2015, aponta para um único destino: o privilégio de quem já está lá, por mérito das urnas, por alianças políticas, por bravatas de oposição.

Jogamos fora, por incompetência e capricho, os protestos de junho de 2013. Não se deu palavra sobre eles na campanha eleitoral. Vejo, com alguma esperança, que os protestos por reforma política ecoem pelo país. Alguma esperança, pois é preciso mais do que as ruas para colocar a faca no peito de quem é responsável pela alteração das leis. E pressão pós-eleição perde força sem sua maior arma: o voto.

Em tempos de ameaças de voar para Miami ou de pedir a volta do regime militar, penso nas frases do psicanalista Contardo Calligaris. “(…) quando existe, entre os candidatos, um fundo político comum, só resta debater temas cuja relevância seja fictícia ou pretextuosa, e sobretudo inventar jeitos de demonizar o adversário. (…) Agora, com as maldições dos que perderam e hosanas dos que ganharam, sinto-me como num jogo de futebol, em que a violência estúpida e cega das torcidas me impede de aproveitar o domingo no estádio.”

Calligaris se referia à eleição presidencial de 2010.

Da Redação
A opinião manifestada no artigo não representa, necessariamente, a opinião do boqnews.com

Quem Somos

Boqnews.com é um dos produtos da Enfoque Jornal e Editora, que edita o Boqnews, jornal em circulação em Santos, no litoral paulista, desde 1986.

Fundado pelo jornalista Jairo Sérgio de Abreu Campos, o veículo passou a ser editado pela Enfoque desde 1993, cujos sócios são os jornalistas Humberto Challoub e Fernando De Maria dos Santos, ambos com larga experiência em veículos de comunicação e no setor acadêmico, formando centenas de gerações de jornalistas hoje atuando nos mais variados veículos do País e do exterior.

Seguindo os princípios que nortearam a origem do Jornal do Boqueirão nos anos 80 (depois Boqueirão News, sucedido pelo nome atual Boqnews) como veículo impresso, o grupo Enfoque mantém constante atualização com as novas tendências multimídias garantindo ampliação do leque de conteúdo para os mais variados públicos diversificando-o em novas plataformas, mas sem perder sua essência: a credibilidade na informação divulgada.

A qualidade do conteúdo oferecido está presente em todas as plataformas: do jornal impresso ou digital, dos programas na Boqnews TV, como o Jornal Enfoque - Manhã de Notícias, e na rádio Boqnews, expandido nas redes sociais.

Aliás, credibilidade conquistada também na realização e divulgação de pesquisas eleitorais, iniciadas em 1996, e que se transformaram em referência quanto aos resultados divulgados após a abertura das urnas.

Não é à toa que o slogan do Boqnews sintetiza o compromisso do grupo Enfoque com a qualidade da informação: Boqnews, credibilidade em todas as plataformas.

Expediente

Boqnews.com é parte integrante da Enfoque Jornal e Editora (CNPJ 08.627.628/0001-23), com sede em Santos, no litoral paulista.

Contatos - (13) 3326-0509/3326-0639 e Whatsapp (13) 99123-2141.

E-mail: [email protected]

Jairo Sérgio de Abreu Campos - fundador / Humberto Iafullo Challoub - diretor de redação / Fernando De Maria dos Santos - diretor comercial/administrativo.

Atenção

Material jornalístico do Boqnews (textos, fotos, vídeos, etc) estão protegidos pela Lei de Direitos Autorais (Lei 9.610 de 1988). Proibida a reprodução sem autorização.

Este site usa cookies para personalizar conteúdo e analisar o tráfego do site. Conheça a nossa Política de Cookies.