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Opiniões

01 DE JULHO DE 2021

Relação conflituosa

Por: Humberto Challoub

Os sucessivos ataques verbais desferidos contra veículos de mídia e jornalistas promovidos pelo presidente Bolsonaro revelam o despreparo do principal dirigente do País no trato com a imprensa, setor que cumpre papel relevante e imprescindível nos regimes democráticos. Ao depreciar o trabalho jornalístico, o presidente utiliza sua retórica verborrágica para lançar dúvidas generalizadas sobre os meios de comunicação, evitando assim responder com equilíbrio e profundidade questões relevantes para o conjunto da sociedade. Com essa postura, ele ressuscita o velho jargão maniqueísta da doutrina política, colocando-se como vítima de um processo sistemático desencadeado pelos meios de comunicação para depreciá-lo.

Não há como negar que, como qualquer outra atividade, a imprensa também está suscetível a cometer equivocos. Também é preciso reconhecer que jornalistas possam atuar de forma tendenciosa e que donos de veículos de comunicação defendam propósitos outros ou se coloquem a serviço de interesses particulares. Contudo, essa não é a regra geral, ao contrário. Nesse contexto, os posicionamentos de Bolsonaro teriam maior valor se fossem dirigidos à fiel elucidação de fatos, ao invés de tentar dissimular evidências e camuflar esclarecimentos de atos e decisões adotadas de seu governo. Ao mesmo tempo em que, juntamente com seus fieis seguidores, criticam o desempenho da imprensa, canais públicos de comunicação e emissoras favorecidas com verbas de publicidade promovem aparelhamentos midiáticos voltados à promover versões de fatos que apenas lhe interessam. A história é repleta de exemplos das consequências danosas que o uso da máquina de comunicação pública pode trazer à sociedade, especialmente pela capacidade de forjar falsos conceitos e induzir a entendimentos que nem sempre condizem com a realidade.

O cargo de presidente requer resiliência às críticas habituais realizadas pela imprensa, pois esse é um dos papéis que cabe ao jornalismo para contribuir com a fiscalização da atividade pública. Tantos outros governantes tiveram o mesmo dissabor e souberam entender que o cargo exercido delega direitos incontestáveis, mas impõe deveres institucionais que incluem a obrigação de dar total transparência e a devida publicidade aos atos praticados na função. A imprensa livre é uma conquista e um fator preponderante para a manutenção das liberdades individuais, por isso deve ser aceita com suas contrariedades e suas possíveis imperfeições. À sociedade cabe o julgamento dessa atividade, especialmente em um estado plural e democrático como o brasileiro.

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