Vida & Prazer
Marcia Atik

Psicóloga clínica e terapeuta sexual e de casal

Repaginando a vida

23 de agosto de 2014 - 08:43

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Diz uma lenda africana que numa aldeia distante, quando a tristeza e o desânimo desabavam como névoa densa sobre o povo, fazendo com que adoecessem de angústia, em tempos difíceis, as pessoas sentavam-se ao redor do mago da tribo para ouvi-lo contar histórias dos avós dos avós de seus avôs, e as crianças se agitavam com as empolgadas narrativas, os adultos calavam-se se apropriando de cada frase e se reconhecendo em aspectos das tramas, identificando-se. Era reconfortante saber que de forma indireta também eram protagonistas de uma história de muitos heróis.

Achei linda essa lenda, pois na verdade ela fala do papel da família, de nossos antepassados e o quanto essas histórias são estruturantes da personalidade sejam ela lendas ou verdadeiras.
Na clínica hoje em dia, e isso é muito triste percebemos, há um descaso com as histórias de nossas raízes que têm me chamado a atenção, pois além de cultivá-las tenho a firme crença de que elas alimentam sonhos e dão força em muitos momentos.

Mas o que me chamou a atenção e que era o mote para o dia dos pais recentemente comemorado, era a ideia de que o valor estão apenas com os heróis e bem sucedidos e hoje sucesso rima com opulência financeira e o quanto é bom termos heróis de carne e osso, com fragilidades e erros para que não nos assombrem nem nos humilhem.

As relações quer que sejam familiares, conjugais, profissionais, infelizmente carregam no viés do poder daquele que pode mais, no sentido mais estrito do ditado popular: “ Quem pode manda, quem tem juízo obedece”.

Crenças essas que abafam potencialidades e que impedem o crescimento enquanto seres desejosos que somos.

A esposa, artista que nunca ouviu um elogio pela sua arte que acaba ou abandonando ou desvalorizando suas produções; o filho adulto que nunca soube que sua mãe era pianista exímia, pois não houve espaço para ouvir; o filho adolescente que percebeu um equívoco do pai que não foi valorizado até que consequências graves apareceram; e o pai que não pode errar, pois desde os anos 50 ouvimos que “Papai sabe tudo ”e é cruelmente abandonado pela família quando se reconhece diferente do que todos imaginavam e resolve assumir sua homossexualidade antes de ser afogado pela dor de ser o que não é.

Eu poderia descrever inúmeras situações de nossos vizinhos e daqueles amigos que moram longe, mas que na verdade podem acontecer dentro de nossas casas e famílias.

Na verdade esse artigo é um libelo pelo respeito, mas respeito ao outro e sua natureza, para o outro e suas opções, falamos tanto em diversidade mas como ainda estamos atrasados na aceitação de que ninguém é igual a ninguém e por isso mesmo somos especiais e maravilhosos.
Essa semana entrei em contato com um movimento universal de colocar no perfil do Facebook durante 100 dias uma foto, comentário ou qualquer outra coisa que mostre o nosso deslumbramento por algo novo, bonito, lírica a ideia é treinar o coração para desconstruir olhares e valores arcaicos e abrir espaços novos.

Fica a dica: olhar o diferente como algo que acrescenta e enriquece.