Ideias
Adelto Gonçalves

Doutor em Letras na área de Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo (USP) e autor de Os Vira-latas da Madrugada (Rio de Janeiro, Livraria José Olympio Editora, 1981), Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002), Bocage - o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003) entre outros. E-mail: marilizadelto@uol.com.br

‘Ruminar’ ou o lirismo que vem do sertão

Novo artigo do professor universitário, jornalista e escritor Adelto Gonçalves

12 de maio de 2020 - 14:10

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I

Quem está acostumado a ler a Bíblia sabe que, no Velho Testamento, em Números, capítulo 22, encontra-se a história em que um anjo aparece para advertir Balaão, filho de Beor, o Petor, senhor das campinas de Moabe, da banda do rio Jordão de Jericó, que, a pedido de Balaque, filho de Zipor, rei dos moabitas, pretendia barrar a passagem dos filhos de Israel, contrariando o que Deus lhe dissera em sonho. E que seguia Balaão em sentido contrário até que o anjo do Senhor fez com que a jumenta sobre a qual ele seguia montado se desviasse do caminho.

Então, Balaão espancou a jumenta para fazê-la tornar ao caminho. E, vendo que o animal não respondia, voltou a espancá-lo com o bordão mais duas vezes. Então, o Senhor abriu a boca da jumenta para questionar Balaão: Que te fiz eu, que me espancaste estas três vezes? Em seguida, a jumenta ainda diria a Balaão: Porventura não sou a tua jumenta, em que cavalgaste desde o tempo que eu fui tua até hoje? Costumei eu alguma vez fazer assim contigo? E ele respondeu: Não. Então o Senhor abriu os olhos de Balaão, e ele viu o anjo do Senhor, que estava no caminho (…).

Mas, a que vêm estas reminiscências? Vêm para lembrar que não é de hoje que os homens de imaginação colocam os animais a falar ou ao menos a manifestar sentimentos que seriam inerentes apenas aos seres humanos, geralmente de lealdade. É o que se pode ver também na novela Asno de ouro em que seu autor, Lucius Apuleio (125d.C-170d.C), filósofo romano nascido em Madaura, na atual Argélia, Norte da África, conta como o personagem Lúcio, na Grécia, ao tomar uma poção por engano na casa de uma mulher versada em artes mágicas é transformado em asno, mas sem que viesse a perder a sua inteligência. Raptado por um bando de salteadores, Lúcio passa por provações, trabalhando como burro de carga, até que volta à condição humana. Na forma de asno, porém, tem a oportunidade de ouvir relatos de homens e mulheres e testemunhar a precariedade da vida humana. Essas aventuras acabam por constituir uma fábula sobre o pecado e a expiação.

II

Não se sabe se foi a partir desses exemplos que o poeta potiguar David de Medeiros Leite (1966) imaginou o seu livro de poemas Ruminar (Rumiar), que saiu em edição bilíngue em 2015 pela editora Sarau das Letras, de Mossoró-RN, e Trilce Editores, de Salamanca, com tradução para o espanhol pelo poeta peruano Alfredo Pérez de Alencart (1962), radicado há muitos anos em Salamanca e professor universitário desde 1987. O Asno de ouro, aliás, é citado por Alencart no prefácio que escreveu para esta obra, para lembrar que igualmente David de Medeiros Leite faz com que animais também falem, adquirindo a forma humana. “Em Ruminar, primeiro quem fala é o gado; depois, o vaqueiro que cuida do rebanho”, observa Alencart.

De fato, o autor apresenta, de forma poética, a relação homem-animal no contexto do sertão nordestino, colocando num primeiro momento o que seria a visão do gado, com suas inquietações que vão desde a preocupação com suas crias, até o questionamento quanto a sua situação de servo ou escravo do ser humano. Em seguida, os poemas mostram a visão do vaqueiro, sua preocupação com as tarefas cotidianas e até mesmo seu apego a superstições comuns ao homem sertanejo. Tudo perpassado por um lirismo transparente e puro, com versos moldados em formas breves e livres.

Um bom exemplo da primeira parte é um dos três poemas que dão título à obra, “Ruminar III”: A gemedeira do carro de boi/ faz o homem,/ de beira da estrada,/ admirar nossa passagem./ O ruído também/ nos serve/ de contrapeso/ ao fardo arrastado./ Entre/ a faina e o ruminar/seguimos aviltando/ vergastadas/ – transferidas, talvez –/ dos que sustentam/ em confusas mãos/ capatázios látegos.

O que encanta nos poemas de David de Medeiros Leite é a maneira como o poeta extrai seiva lírica da matéria mais humilde, como se pode constatar nos versos de “Sujeitos (ruminam)”, peça escrita em memória do poeta popular, cantor e improvisador cearense Antônio Gonçalves da Silva (1909-2002), mais conhecido como Patativa do Assaré. Vale a pena reproduzi-lo por inteiro: Para confidência/ elegi a vaca Estrela./ Com ela, meu desabafo diário/ em regozijos e dissabores./ E como sou compreendido!/ O boi Fubá,/ com cara enfadada,/ fica com despeitos./ Dou de ombros! Também os escuto/ decodificando seus humores,/ desgostos e contemplares./ Sou capaz de decifrar/ o olhar bovino/ desde menino./ E isso aprendi com meu avô,/ que dizia:/ “Nem carece encará-

los – eles não gostam –/ só precisa mirá-los/ de soslaio/ e verá/ a profundidade/ que carregam/ nos silêncios/ e breves mugidos”.

III

Nascido em Mossoró-RN, David de Medeiros Leite, graduado em 1999 pela Universidade do Estado do Rio Grande do Norte (UERN), mestre (2008) e doutor (2011) em Direito pela Universidade de Salamanca (USAL), na Espanha, é advogado, jurista e gestor com atuação em diversos cargos na administração pública e professor da UERN desde 2004, onde também desenvolve pesquisas, especialmente na área de Direito Público.

Foi pró-reitor de Gestão de Pessoas na UERN e é assessor jurídico da presidência do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte. Foi ainda diretor científico da Fundação de Apoio à Pesquisa no Estado do Rio Grande do Norte (Fapern). Em 2005, em parceria com o escritor Clauder Arcanjo, criou a editora Sarau das Letras. Além de livros de poemas, tem publicado biografias e livros de crônicas e de História com temas ligados ao Nordeste, em especial à cidade de Mossoró.

É autor de Companheiro Góis – dez anos de saudade, biografia (Coleção Mossoroense, 2001), Os carmelitas em Mossoró, em coautoria com Gildson Souza Bezerra e José Lima Dias Júnior (Coleção Mossoroense, 2002), Ombudsman mossoroense (Sebo Vermelho, 2003), Duarte Filho: exemplo de dignidade na vida e na política, biografia, em coautoria com Lupércio Luiz de, Azevedo (Sarau das Letras, 2005), Incerto caminhar (Sarau das Letras, 2009), Cartas de Salamanca (Sarau das Letras, 2011), Casa das lâmpadas (Sarau das Letras, 2013), Mossoró e Tibau em versos – antologia poética, em coautoria com Edilson Segundo (Sarau das Letras, 2014), Rio do fogo, em coautoria com Bruno Lacerda (2017); Mi Salamanca: guía de un poeta nordestino, com tradução e prólogo de Alfredo Pérez Alencart (2018), Aldemar Duarte Leite: centenário de nascimento, biografia (2018), e História da Liga Operária de Mossoró, em coautoria com José Edílson Segundo e Olivá Leite da Silva Júnior (2018).

Na área de Direito, é autor ainda de Presupuesto participativo en municipios brasileños: aspectos jurídicos y administrativos (Editorial Académica Española, 2012) e Participação política e cidadania – Amicus Curiae, audiências públicas parlamentares e orçamento participativo, em coautoria com José Armando Pontes Dias Júnior e Aurélia Carta Queiroga da Silva (2018).