Ponto de vista
Sessão especial Oficinas Querô
A cerimônia especialmente montada para exibir quatro filmes produzidos por 40 jovens das turmas básica e avançada, entre 14 e 18 anos de idade, das Oficinas Querô 2014 fez com que uma das salas do multiplex Cine Roxy5, ontem (9), em Santos, ficasse completamente lotada. Os 500 assentos disponíveis foram ocupados pelo público. Entre eles estavam familiares, amigos, apoiadores, diretores, elenco e convidados especiais, queforam para conferir o resultado de um ano inteiro de trabalho.
Entre as produções mais aguardadas estava o mini documentário Pra não dizer que não deixei lembranças, delicado filme rodado durante uma ação social no asilo Lar Vicentino, em São Vicente, e que traz registros íntimos e emocionantes de idosos falando sobre suas vidas naquele local.
Da turma básica, Nicole Vasconcelos, 16 anos, é uma das diretoras do filme e disse ter realizado um sonho ao ver tantas pessoas comparecem para assistir a produção, realizada ao lado de outra aluna, Gabrielli Barros, de 14. “Passamos dois dias filmando com os idosos. Eles são incríveis. Ver a sala lotada e todo mundo aplaudindo, além de alguns que estavam chorando emocionados, foi muito lindo de ver”, comentou Nicole.
“Foi emocionante realizar esse trabalho, nós não sabíamos o que íamos encontrar lá”, disse Gabrielli, ao relatar sua primeira experiência como diretora de uma produção audiovisual. “É muito emocionante ver todas essas pessoas aplaudindo o nosso documentário”. Com o período de aprendizado finalizado nas Oficinas Querô, Nicole e Gabrielli confessaram querer continuar a estudar e seguir carreira dentro do mercado cinematográfico.
O curta metragem Tempo é Morfina, dirigido pelos estudantes da turma avançada Kamilli Semenov e Daniel Queija, ambos de 17 anos, também era aguardado pelo público. O roteiro, que narra os últimos momentos de um casal prestes a se separar por um motivo inicialmente desconhecido, foi escrito pelo diretor e roteirista paulistano Rafael Aidar, autor do premiado O Pacote, de 2013.
Muito animada com o resultado do trabalho exibido na telona, Kamilli também falou sobre seus planos para os próximos anos. “A sala estava bombando. Estou muito orgulhosa e feliz. O Rafa (Aidar) gostou, o elenco gostou e a gente adorou. Ano que vem vou entrar na faculdade, estudar cinema e produzir bastante. É cinema para o resto da vida agora!”.
Igualmente satisfeito com os resultados, e feliz por ter participado como tutor dos jovens diretores do filme durante sua realização, Rafael Aidar disse ter ficado com a sensação de missão cumprida.
“A gente que faz cinema sabe que a obra se completa com o público. Chegar aqui e ver toda essa gente é igual como eu costumo dizer: essa é a paisagem que a gente mais gosta. Fiquei muito surpreso com os meninos pela maturidade e firmeza que eles tiveram em todas as escolhas feitas neste projeto”, disse Aidar.
Desvio, dirigido por Juliane Paixão e Vitória R. Vieira, de 18 e 15 anos, respectivamente, discorre sobre duas mulheres que decidiram enfrentar os preconceitos e seguir o sonho de se tornarem motoristas de caminhão, e Azul da Cor do Mar, escrito por Cibely Ferreira, 16 anos e dirigido por Pedro Mendes, de 15, que narra um romance adolescente ambientado nas praias da região, foram os outros dois filmes exibidos no evento.
A coordenadora das Oficinas Querô, Tammy Weiss, ficou com poucas palavras para descrever a importância de estar por mais um ano realizando o trabalho de formação audiovisual dos jovens e revelou uma novidade para o próximo ano.
“Poder ver o resultado do trabalho desses meninos e no nível de qualidade apresentado nesses filmes foi muito bonito. São momentos como esse que faz a gente recarregar as energias para começar tudo novamente no ano seguinte. Em 2015, iniciaremos uma parceria com a Prefeitura de Santos para a construção do CinescolaQuerô, um cinema popular com 120 lugares e que vai abrigar as aulas das Oficinas Querô e levar cultura para toda a região do Mercado Municipal.A previsão é que tudo fique pronto em 2016”.
Oficinas Querô
Anualmente, 40 jovens de baixa renda da Baixada Santista são selecionados para as atividades desenvolvidas por meio das Oficinas Querô, projeto social idealizado e mantido pelo Instituto Querô. Durante um ano os estudantes recebem aulas de formação audiovisual e produzem seus próprios curtas metragens, atuando como roteiristas, diretores, cinegrafistas e outras funções desenvolvidas no cinema.
No segundo ano de formação, os jovens que mais se destacaram no primeiro módulo ganham mais um ano de capacitação e passam da turma básica para avançada. Nessa nova etapa participam de atividades voltadas à inserção no mercado de trabalho e à produção de mais um curta metragem.
Em nove anos de existência, as Oficinas Querô já capacitaram cerca de 250 jovens, produziu 84 filmes e conquistou 41 prêmios em diferentes festivais e mostras de cinema.